Antinarciso
Eu queria aprender a conviver com minha própria solidão. Me encarar de frente, olhar em meus olhos, padecer minhas dores e gozar minhas alegrias. Eu queria saber lidar com a ausência, a saudade, o vazio, o espaço que há entre dois corpos. Me tomar pelos braços e conduzir minha existência de volta aonde ela se perdeu. Em vez disso eu fujo, me escondo, desapareço entre olhares, sorrisos, corpos e toques. O fluxo diante de mim dissipa minha atenção em mil pedaços e suporto o peso que é conviver com uma alma inteira. Mas não há como permanecer vivendo sempre presente; é necessário, por vezes, se esvair. Se entregar ao vazio do meu interior, namorar a solidão, abraçar a morte e ousar deixar de ser.