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Pássaro sem bando

Eu não preciso de muito para ser feliz: um livro de poesias aberto sobre a cama; uma noite de natal, na qual as luzes projetam monstros e querubins; um mocca quentinho, com o ganache deslizando pela caneca; uma conversa com quem sente as dores do mundo; e, acima de tudo, a certeza de um ano melhor. ... Às vezes, tenho a sensação de que os sonhos grandiosos são mais fáceis de alcançar; que a simplicidade, justamente por sua facilidade, é inalcançável. Seria tudo mais simples se o ouro fosse mais importante do que a verdade. Mas não: eu sou uma mariposa que só se sente atraída pelo brilho das estrelas. ... O meu problema é não ter nascido quebrado como todo mundo. Os domingos seriam mais fáceis de suportar com alguns neurônios a menos. As árvores não atrairiam tanto a minha atenção, e as palavras não pesariam uma tonelada. Voar perde toda a graça quando se é um pássaro sem bando.

Muro de arrimo

Eu vejo a cidade se transformar e apagar minhas melhores lembranças. Os lugares que antes guardavam marcas do meu passado estão sendo soterrados por novas vivências — e um pouco de mim vai morrendo a cada dia. ... Onde antes havia um beijo, agora há apenas um banco de concreto. O que antes era um amontoado de sorrisos, agora é um muro de arrimo. Cada mudança exige um pedaço da minha alma, como se o futuro da humanidade dependesse do fato de eu deixar de existir. ... Aprendi que só é possível habitar o futuro esquecendo o passado; que o amanhã nasce das cinzas do hoje. E, como não consigo esquecer, vou sendo apagado a cada verso. A saudade não é suficiente para me manter vivo — paradoxalmente, é tudo que tenho para me manter são.

Sou um historiador das ideias

Nunca busquei nos livros um ensinamento que pudesse guiar meus passos. Não reconheço nos filósofos, mestres ou guias espirituais, e não faço da Academia um lugar de devoção ao qual eu possa me entregar para alcançar um sentido último para minha existência. O que busco, na verdade, é entender a mim mesmo com base naquilo em que discordo ou concordo das ideias oferecidas por outrem. Como estou em constante transformação, tenho consciência de que essa busca não tem fim: é um eterno porvir. Dessa consciência nasce também a recusa em oferecer verdades. Prefiro ser lembrado como um historiador das ideias - alguém que reconhece rastros e testemunhos - em vez de um ideólogo ou construtor de sistemas. Pois a filosofia que me resta não é a que edifica, mas a que interroga.

Entre memórias e atos

O peso das consequências faz crer que cada ato sela em nós uma essência definitiva. O passado se acumula, cresce, e nos convence de que a liberdade se perde sob o peso daquilo que já fomos. Mas não somos ruínas do que passou: cada escolha, ainda que irreversível, abre brechas para novas possibilidades de ser. A existência não precede a essência — ela a reinventa, incessantemente, no entrechoque das memórias com os atos.

Se Deus não existisse seria necessário inventá-lo

Minha religiosidade é pragmática: não a sustento por provas, mas por seu valor existencial, psicológico e social. A razão, diante da finitude e das adversidades, mostra-se insuficiente para amparar o sujeito em suas crises, traumas e solidões. Concordo com William James quando afirma que ainda sem provas da existência de Deus, a crença consola e isso, por si, já basta. Por outro lado, para que fique claro, também defendo que a religiosidade não deve ser ter licença para tudo: seus limites precisam ser traçados. A crença não é refúgio para todo infortúnio, mas amparo apenas onde a razão é impotente; só deve ser exercida diante do que não se compreende, diante do que não se explica.

Entre a sociedade e os revolucionários

A sociedade costuma ser muito ingrata com seus revolucionários. Apenas a história tem o papel de redimi-los, consagrando-lhes a imortalidade. Esse contraste revela duas coisas importantes: o conservadorismo é inimigo do futuro; e o vanguardismo é dependente do passado. 

Docta ignorantia

Tenho por certo que jamais alcançarei o conhecimento pleno das coisas; e, ainda que me contente com o pouco que me é dado saber, não se extingue em mim a sede de compreender. Essa docta ignorantia é o fardo e a graça de minha condição: sei que ignoro, e por isso mesmo busco sem cessar. Filho de Poros e de Penia, carrego em minha essência a contradição que me ergue e me abate, que me lança ao infinito e me prende à terra. Se muitos veriam nisso um motivo de desespero, encontro, ao contrário, uma secreta alegria: pois é na insuficiência que descubro o meu ser, e na fome insaciável de saber que reconheço a dignidade da minha existência.

Pascalianismo

Na esperança de vencer, perdi; no desejo de viver, morri. Tal como Tales, que ao mirar o céu estrelado caiu em uma cova, também me deixei abater: enquanto buscava as alturas, a miséria tomou posse de mim. Os ideais que forjei não me elevaram, antes me afundaram no peso do real. Assim, descubro em mim uma contradição: já não sei se pertenço ao reino animal ou se ainda guardo algo do divino.

Um lobo à luz do dia

Partilho, em larga medida, as características do Lobo da Estepe, tal como descrito por Hermann Hesse. Sua natureza híbrida, anfíbia, dual, que transita entre dois pólos contrastantes e que gera consequências devastadoras e divinas para si e para o mundo se projetam sobre mim, como um reflexo literário da minha própria existência. Contudo, há um aspecto, em especial, que me distancio completamente: sou diurno, um matuto na raiz do termo, e amo as manhãs ensolaradas. E isso me faz ainda mais triste que os demais lobos, que vagam apenas durante noite e têm a escuridão para os proteger. Ser uma monstruosidade sob à luz do dia, aos olhos de todos, é ainda mais arriscado e penoso. Deve ser por isso que passei a maior parte da minha vida como uma presa e quase nunca como caçador.

A queda de Ícaro

A idade me trouxe uma certeza angustiante: eu não nasci para ser eterno . Não serei capaz de produzir nada de realmente memorável e extraordinário, seja filosófico, científico ou artístico. Não deixarei legado algum para além das poucas lembranças que ainda irão habitar na cabeça de meia dúzia de pessoas. A teomania que um dia me deu asas para alcançar voos tão altos, me fez também desabar em queda livre nos confins da terra. Tal como Narciso, me afoguei contemplando meu próprio reflexo idealizado nas águas turvas e lamacentas da vida. Voltei a ser só poeira na imensidão do espaço; barro que um dia foi animado com um sopro divino. Tudo, na verdade, não passou de uma brincadeira de Deus - ele é comediante, afinal. Uma ilusão que eu mesmo criei para fugir do fato de que sou finito, medíocre e superficial. 

Dostoiévski e Deus

E se formos apenas personagens em um grande romance polifônico escrito por Deus?

Da cabeça aos pés

Não dá para ensinar filosofia sem ser visceral. O corpo precisa acompanhar o movimento das ideias. Se na mente tudo é um turbilhão, o corpo deve ser um frenesi. Ele é um testemunho! Por isso eu me movimento, de um lado a outro da sala, sem parar. Sou como as águas do rio de Heráclito que não param nunca. Cada correnteza acompanha o fluxo do meu pensamento e de uma hora para outra, repentinamente, eu deixo de ser professor e me torno um ator. Me torno um ator tão bom que finjo ser professor e todo mundo acredita.