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Mostrando postagens de 2019

Imanente, demasiado imanente

Não há nada de essencial no mundo. Tudo é passageiro, acidental, finito e passivo de transformação; tudo sofre mudança, se destrói, é secundário, existe por um curto período de tempo. Não há nada de universal aqui: lidamos apenas com coisas particulares. Não existe nenhuma cadeira igual a essa; não existe nenhum cachorro igual ao meu; não existem ninguém igual a mim. Não há um outro "plano", um outro "reino", um outro "verso"; habitamos na imanência, transitamos na imanência, somos a imanência  e jamais deixaremos de ser. Ainda assim partilhamos ideias e ideais; comunicamos verdades apodíticas; elaboramos conceitos metafísicos; exigimos a fé de outros; seguimos utopias. Criamos sistemas filosóficos complexos em tornos de palavras vazias e condenamos quem ousa nos lembrar daquilo que estamos cheios. Estamos cheios da vida - da verdadeira vida . "O Ser se diz de várias maneiras", mas existem maneiras mais corretas de o dizer: Lógos, Forma, Substân...

Um não é tudo

Mas então para mim, um único homem só é o melhor se for mil.

A vingança do espelho

O maior inimigo do filósofo é sempre ele mesmo. Essa vontade desmedida de querer se provar e  que possui algo de diferencial, de peculiar, de atípico; mas mui necessário, extraordinário e divino! Essa "síndrome do messias" que o leva acreditar que é portador de uma verdade transcendental, representante das Musas, seguidor de Cristo, profeta do absoluto; e que o coloca a parte do mundo, idiotiza-o (no sentido mais antigo do termo) e o força a viver e reviver as feridas incicatrizáveis que ele mesmo abriu para sentir dor. Ó pobres criaturas: esse autoflagelo por meio de conceitos esquizofrênicos que nada apontam no mundo ou essa tentativa demasiadamente frustante de promover uma catarse intelectual (ou seria espiritual?) através da análise lógica de uma linguagem que, por si mesma, nada parece dizer. O maior inimigo do filósofo é sempre ele mesmo: enaltecendo qualidades, desmerecendo descobertas. Esse habitual estado contemplativo que pensa a si mesmo, tal como o deus aristoté...

É fácil refutar Sócrates, difícil é refutar a verdade

Mais do que nunca é tempo de popularizar o conhecimento sobre Lógica Formal e Informal. É mister identificarmos as falácias nos discursos políticos e, em especial, nas ideias dos famosos "gurus do youtube" que disseminam um suposto saber erudito, recheado de premissas tão inválidas quanto incorretas, mas que, dado a falta de educação mínima das massas, são ovacionados e postos como os novos "mestres da verdade". A lista de falácias é longa e cada uma delas é deveras importante, mas destaco apenas duas que vejo sendo repetidas copiosamente: a) Argumentum ad Hominem: a ideia aqui é deixar de lado o argumento do adversário para atacar a pessoa que o criou. Acrescente um sem número de Fake News e você oferecerá ao público mais amplo a ideia de que o argumento do seu adversário é insustentável por ele ter comedido alguns deslizes morais na vida; b) Falácia Tu Quoque: a ideia aqui é invalidar o argumento do adversário apontando como ele faz aquilo que julga que é incorre...

Mais do que simples pardais

Os verdadeiros cristãos precisam ser "cautelosos como serpentes e inofensivos como pombas" (MATEUS, 10, 16). A ideia é equilibrar duas características que, conquanto se mostrem profundamente contrárias, oferecem a segurança e a humildade necessárias para se permanecer como "ovelhas no meio de lobos" (MATEUS, 10, 16). A serpente possui um forte instinto de preservação, mas é incapaz de descenir a quem deve atacar; por outro lado, a pomba carrega o espírito da fraternidade, porém não é capaz de perceber quando sua vida se encontra em ameaça. Assim, o verdadeiro cristão deve ser cauteloso em suas ações, mas amoroso em seus atos. Ele não deve promover acepção de pessoas (ATOS, 10,34), mas precisa estar sempre atento aqueles que querem seu mal. E serão muitos que oferecerão perigo ao cristão, sobretudo aqueles pelos quais Cristo veio (JOÃO, 1, 11). Ora, "se ao senhor da casa apelidaram de Beelzebul, quanto mais difamarão os membros de sua casa" (MATEUS, 10, 25...

Vide e vê

O evangelho de João é aceito, quase com unanimidade pelos estudiosos, como o mais filósofico dentre os demais. É sabido que, no que diz respeito a narrativa, ele foge daquela visão unitária que torna os outros parte de um mesmo enunciado, angariando o título de "evangelhos sinóticos". Todavia, para além do seu aspecto formal, o evangelho de João também apresenta uma grande variedade de conceitos filosóficos que o coloca em diálogo direto com os pensadores da Grécia. Só a título de exemplo, o prólogo se vale de ao menos dois termos importantíssimos na discussão dos filósofos  naturalistas (que ficaram conhecidos como "Pré-Sócraticos"): Arché (princípio) e Lógos (palavra). "No Princípio era a Palavra..." e com essa simples frase João insere o Jesus Cristo na discussão criada por Tales sobre o princípio de todas as coisas. Sendo um evangelho essencialmente filosófico, portanto, cada conceito utilizado, cada estrutura montada para a apresentação do discurso, ...

O pleno cumprimento da Lei

Se Cristo veio para interpretar a Lei dos profetas a fim de auxiliar aqueles que o seguem a encontrar o verdadeiro "Reino de Deus", por que devemos gastar mais energia lendo o Velho Testamento do que o Novo? O Velho Testamento exige um conhecimento prévio (e aprofundado) de história, de política, dos conceitos e das práticas exercidas por essa cultura que, apesar de sermos herdeiros, se encontra a uma distância destácavel de nós, Brasileiros. É mister, portanto, aos cristãos, lerem o Velho Testamento a luz das explicações de Jesus, pois isso nos auxiliará a não cair nos erros de anacronismo ou, o que pode ser ainda pior, silenciar a voz do Messias em detrimento de certas condutas que foram criticadas por Ele. Não quero dizer que devemos deixar de lado o Velho Testamento (o que seria uma completa heresia), mas que gastemos uma energia maior a estudar e a interpretar o Novo Testamento, pois assim teremos os instrumentos necessários (oferecidos pelo próprio Cristo) para compree...

Não há nada de imparcial em Cristo

Há um outro tipo de "cristão" que me entristece profundamente: aquele que fecha os olhos diante da injustiça cometida por outros. Certo dia ouvi de um padre que a sua posição, diante dos recentes acontecimentos e do cenário político no Brasil, deveria ser imparcial, sem prestar opinião ou manifestar apoio a qualquer um dos "lados". Para justificar seu posicionamento, ele alegou que o próprio Jesus Cristo foi imparcia durante toda a sua vida e que isso poderia ser visto em suas pregações, nos evangelhos - o que é uma completa mentira. Se Cristo tivesse sido imparcial, ele não teria multiplicado os pães para alimentar aqueles que estavam com fome; ele não teria curado a multidão de moribundos que o cercava; ele teria deixado a prostituta ser apedrejada; ee não teria contrariado a lei dos judeus e ensnado que, até mesmo aos sábados, Deus é o Senhor; ele não teria chicoteado os adoradores de Mamom que faziam da casa de Deus um lugar de comércio; ele não teria sido traí...

Falso Messias

A cada declaração do atual presidente da república é possível contrapor um versículo bíblico que demonstre como não há nada de cristão em suas palavras. O fato da maior parte dos "seguidores de Cristo", tanto por parte do catolicismo quanto por parte do protestantismo, terem-no escolhido como seu representante maior só demonstra um fato que sempre esteve presente nas igreja cristãs do nosso país: o cristianismo que aqui impera, há muito, não é cristão. Embora Cristo tenha falado por parábolas e as suas palavras, em diversas ocasiões, terem múltiplos sentidos e significados, há ensinamentos que são mui claros e inequívocos: quem não ama o próximo, não ama a Deus; quem nega auxílio ao seu irmão, nega a Deus; quem não perdoa a seu irmão, não possui Deus dentro de si. Os evangelhos, as cartas de João e de Paulo são bem enfáticas em um ponto: Deus é amor; e amor sem distinção de pessoas. O Novo Testamento não veio para mudar uma só letra do Antigo, mas para o lermos conforme os n...

O mal como um ponto de vista

Nunca deixes que as mazelas do mundo afetem o modo como tu o enxergas. O mal, na maior parte das vezes, não passa de um sintoma do nosso ponto de vista já tão adoecido e moribundo. Não reserves o resto dos teus dias lamentando as tragédias da vida, mas te esforça para que sejas tu mesmo a cura de todos os males. O mundo é bom, nós que o tornamos inabitável.

Os filósofos cultuam conceitos

O Politeísmo grego operou uma personificação da natureza, atribuindo-lhe características essencialmente humanas. Quem era Gaia se não a própria Terra? Quem era Poseidon se não o próprio Mar? Quem era Zeus se não o próprio Trovão? Ora, se encararmos os seus mitos a partir dessa perspectiva, a Teogonia de Hesíodo se revela uma Cosmogonia, ou seja, um relato sobre a origem do universo. Quando a filosofia surge, ela permanece nesse mesmo viés, mas trazendo um tipo diferente de abordagem: os fenômenos naturai, mais do que cultuados, deveriam ser entendidos. Assim, o lógos  passou a exigir uma nova causa para todas as coisas. Os filósofos milesianos, por exemplo, abandonaram a personificação da natureza em favor da sua conceituação. Por mais que queiramos, não somos capazes de beber a "água" de Tales ou respirar o "ar" de Anaxímenes. Esses termos são conceitos que objetivam responder exclusivamente a exigência do lógos . Eles apontam algo de universal na realidade que é ...

Pelos frutos conhecereis a árvore

A filosofia, no sentido singular do termo, não existe. Ela já nasceu multifacetada, isto é, com diferentes pontos de vista e abordagens. Ela sempre promove e fortalece ideologias, das mais conservadoras as mais liberais. Nunca existiu imparcialidade na filosofia: quem a toma, toma sempre em um certo viés; quem a critica, critica sempre em um certo viés. Não se enaltece ou silencia a filosofia, mas uma filosofia. Qual filosofia, afinal, amas? E qual odeias? Democracia é, mesmo com a diferença, tornar exequível o diálogo entre as múltiplas filosofias. Assim, é sempre possível identificar uma posição anti-democrática.

Atenas: a cidade de Sócrates

Que o daimónion  socrático foi a principal causa para Sócrates não enveredar para o ramo da política é algo que sabemos por meio dos escritos de Platão e Xenofonte. Esse "espírito guardião" fazia parte de uma das singularidades do filósofo que as usava em detrimento da missão que o deus havia-lhe ordenado. O objetivo era evitar que Sócrates morresse sem ter feito algo de útil a si e aos seus concidadãos, isto é, sem ensinar aos gregos que "uma vida sem reflexão não era digna de ser vivida" (PLATÃO, Apologia , 38a). Das proibições que o daimónion  lhe ordenava, uma parece não ter sido suficientemente destacada pelos estudiosos: a de não deixar que Sócrates filosofasse fora de sua cidade natal. Como se sabe, o filósofo passou toda a sua vida em Atenas. Em alguns diálogos, como o Fedro (230c-d), Platão conta que ele sempre se mostrava deslocado quando caminhava para qualquer outro lugar além dos muros da cidade. Mas por que, afinal, somente Atenas? A reposta dessa per...

O Estado de Natureza como a Idade de Ouro

Esses dias, ao ler o livro de Thomas Bulfinck sobre Mitologia Grega, não pude deixar de notar como o "relato das quatro idades" parece refletir o modo como Rousseau havia construído sua própria filosofia. Para este filósofo, todo homem possui qualidades inatas que preexistem à sua prática social, determinando o seu modo de ser diante do mundo. Essas qualidades, afirma ele, são positivas e podiam ser encontradas com maior facilidade naquilo que ele nomeou de "Estado de Natureza. Esse era o momento em que a humanidade dependia exclusivamente da natureza; onde a técnica ainda não era bem desenvolvida e, as relações sociais, eram estabelecidas de uma maneira mais ocasional e não tão necessárias como as nossas. O ponto central do seu pensamento, portanto, se concentra na crítica ao modelo de sociedade em que vivemos e, sobretudo, na perca de nossa própria identidade, na medida em que "progredimos" por meio da técnica e da ciência. Ora, o "relato das quatro id...

O dia em que o padre Mersenne uniu Descartes e Gassendi

Muitos filósofos adquiriram profundas inimizades ao decorrer da vida - seja por conta de suas personalidades atípicas (e nem um pouco sociais), seja pelo simples fato de não concordarem com o pensamento uns dos outros. Alguns fazem dessas inimizades um pretexto para se superarem as próprias dificuldades. Digladiam apenas em ideias, buscando os pontos frágeis da tese rival e demonstrando como elas são insustentáveis ou contraditórias. Outros, entrementes, são mais intolerantes e não suportam a existência do seu inimigo em hipótese alguma. Um bom exemplo para esse último tipo se encontra na relação de Descartes com Gassendi. Conta-se que discordavam de quase tudo e suas concepções eram completamente antagônicas. Enquanto o primeiro buscava uma verdade indubitável para erguer sua filosofia, o segundo era mais adepto do ceticismo, contente em encontrar pelo menos alguma verdade meramente provável. Enquanto o primeiro queria provar a existência de Deus, o segundo dizia que Ele não pass...

A história da filosofia é um relato sobre sangue

A história da filosofia é um relato sobre conflito de ideias. É certo afirmar que, desde os gregos, não houve um só pensamento que não fora criticado, ignorado, rejeitado e, até mesmo, ultrapassado. Isso ocorre porque as ideias têm poder soberano: elas determinam ações, permitindo e negando certas práticas e condutas de vida. A história da filosofia é um relato sobre o assassinato de ideias. Sobre o silenciamento de culturas. Sobre condenação de pessoas. Não é por acaso que certas batalhadas, originadas "apenas" no campo das ideias", se transforma em verdadeiras guerras mundiais. As ideias têm esse poder soberano de, sem utilizar da força, elevar almas e escravizar corpos; de coroar reis e apagar famílias. A história da filosofia é, sobretudo, um relato sobre o poder das ideias. De um pensamento aparentemente banal nasce mil motivos para matar pessoas; de uma proposta entusiasmada de progresso sujam-se mãos de sangue. Quem não quer ficar do lado certo? Quem não quer dit...

Penso, logo repito

Embora Descartes queira amiúde se afastar de Aristóteles, sua filosofia Racionalista acaba sendo uma devedora do pensamento proposto pelo Estagirita. Isso porque o próprio Aristóteles sempre foi um discípulo de Platão e, como tal, atribui grande importância ao pensamento. No que se discute as substâncias e seus atributos, Descartes esclarece que "substância", no sentido mais próprio, só existe uma: Deus. Todavia, também podemos apontar a "substância corpórea" e a "substância espiritual" como sendo minimamente equivalentes a substância divina. Ele faz isso pois sua raiz cristã determina que "somos imagens e semelhanças de Deus" e, em larga medida, participamos de algo do divino. Ora, na medida em que lemos suas obras vamos descobrindo que aquilo que nos aproxima de Deus, na verdade, é a "substância espiritual" (isto é, o pensamento) e aquilo que nos separa é a "substância corpórea" (ou seja, as sensações), de tal maneira que es...

Francis Bacon e o quinto ídolo

Faltou em Francis Bacon a humildade de analisar sua própria vida por meio da filosofia que pregava. Ele também, como a maior parte de nós, estava profundamente preso aos ídolos e isso custou caro ao progresso do seu pensamento. Por querer se distanciar demais dos gregos (e, em particular, do Platonismo) deixou de perceber a importância da Matemática no estudo da natureza. Francis Bacon poderia ter antecipado Galileu e até mesmo Newton se tivesse deixado de lado toda a arrogância e o desejo de ser diferente, único. No fim, ele também acabou reduzindo o complexo ao mais simples; viu todas as coisas sob determinada luz muito particular (a qual estava acostumado); foi governado pelas palavras e, o que é mais sério, construiu sua própria peça teatral e a tornou sua moradia. Existe, portanto, um quinto ídolo: o ídolo do gênio . Aqueles que se consideram sujeitos excepcionais (com pensamentos excepcionais) acabam perdendo a oportunidade de aprender com os outros e serem verdadeiramente grand...