Atenas: a cidade de Sócrates

Que o daimónion socrático foi a principal causa para Sócrates não enveredar para o ramo da política é algo que sabemos por meio dos escritos de Platão e Xenofonte. Esse "espírito guardião" fazia parte de uma das singularidades do filósofo que as usava em detrimento da missão que o deus havia-lhe ordenado. O objetivo era evitar que Sócrates morresse sem ter feito algo de útil a si e aos seus concidadãos, isto é, sem ensinar aos gregos que "uma vida sem reflexão não era digna de ser vivida" (PLATÃO, Apologia, 38a). Das proibições que o daimónion lhe ordenava, uma parece não ter sido suficientemente destacada pelos estudiosos: a de não deixar que Sócrates filosofasse fora de sua cidade natal. Como se sabe, o filósofo passou toda a sua vida em Atenas. Em alguns diálogos, como o Fedro (230c-d), Platão conta que ele sempre se mostrava deslocado quando caminhava para qualquer outro lugar além dos muros da cidade. Mas por que, afinal, somente Atenas? A reposta dessa pergunta pode ser encontrada em outro diálogo de Platão, o Mênon (80a-b): "tu decidistes bem em não atravessar o mar e viajar, pois se fizestes isto em qualquer outra cidade, imediatamente serias expulso como impostor [ou até condenado à morte]". Ora, como se sabe, desde os sofistas, Atenas já estava habituada a colocar em discussões os dogmas mais fundamentais de sua cultura. Isso, por um lado, promoveu o desenvolvimento da democracia face a aristocracia, e por outro, tornou possível o florescimento da filosofia. Em Atenas havia Péricles, o estadista, que gostava das disputas argumentativas e que acolhia abertamente aqueles que, como os sofistas, ensinavam a "tornar o argumento mais fraco no mais forte". Assim, se o deus realmente queria que Sócrates tivesse sucesso em sua missão, ele não poderia deixar que o filósofo fosse para outra cidade. Somente Atenas possuía a liberdade necessária para a dialética socrática  embora não por muito tempo.

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