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Mostrando postagens de agosto, 2025

Docta ignorantia

Tenho por certo que jamais alcançarei o conhecimento pleno das coisas; e, ainda que me contente com o pouco que me é dado saber, não se extingue em mim a sede de compreender. Essa docta ignorantia é o fardo e a graça de minha condição: sei que ignoro, e por isso mesmo busco sem cessar. Filho de Poros e de Penia, carrego em minha essência a contradição que me ergue e me abate, que me lança ao infinito e me prende à terra. Se muitos veriam nisso um motivo de desespero, encontro, ao contrário, uma secreta alegria: pois é na insuficiência que descubro o meu ser, e na fome insaciável de saber que reconheço a dignidade da minha existência.

Pascalianismo

Na esperança de vencer, perdi; no desejo de viver, morri. Tal como Tales, que ao mirar o céu estrelado caiu em uma cova, também me deixei abater: enquanto buscava as alturas, a miséria tomou posse de mim. Os ideais que forjei não me elevaram, antes me afundaram no peso do real. Assim, descubro em mim uma contradição: já não sei se pertenço ao reino animal ou se ainda guardo algo do divino.

Um lobo à luz do dia

Partilho, em larga medida, as características do Lobo da Estepe, tal como descrito por Hermann Hesse. Sua natureza híbrida, anfíbia, dual, que transita entre dois pólos contrastantes e que gera consequências devastadoras e divinas para si e para o mundo se projetam sobre mim, como um reflexo literário da minha própria existência. Contudo, há um aspecto, em especial, que me distancio completamente: sou diurno, um matuto na raiz do termo, e amo as manhãs ensolaradas. E isso me faz ainda mais triste que os demais lobos, que vagam apenas durante noite e têm a escuridão para os proteger. Ser uma monstruosidade sob à luz do dia, aos olhos de todos, é ainda mais arriscado e penoso. Deve ser por isso que passei a maior parte da minha vida como uma presa e quase nunca como caçador.