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Mostrando postagens de 2018

No prato que comeu

Valorize suas raízes intelectuais. O livro que hoje você tanto desdenha já te ensinou algo um dia.

Deixai que venham a mim as criancinhas

A filosofia é algo sério demais para ser levada tão a sério. O discurso filosófico na acadêmica, apesar de toda sua densidade intelectual, é raso, superficial, vazio de significado, sem qualquer "referência factível". Por outro lado, quem dela se utiliza apenas para se "divertir", acaba oferecendo contribuições substanciais, carregadas de significado e, o que é ainda melhor, abertas a um público mais amplo e menos seletivo.

Entre cães e lobos

O cão pode até se assemelhar ao lobo em aparência, mas as suas naturezas são bem diferentes. Um homem cauteloso, atento aos pequenos detalhes, sempre conseguirá perceber que dentre os bons existem os maus. Tudo é apenas uma questão de como cada um se comporta: os cães se divertem junto às ovelhas; já os lobos se alimentam. No meio acadêmico ocorre o mesmo.

Segundo Ato

Dia do livro. Hoje. Nada parece mais trágico; nada parece mais cômico. Estamos vivendo uma peça da dramaturgia, senhoras e senhores. A vida realmente imita a arte. Passemos ao segundo Ato.

Professorar

Educar: eis meu imperativo.

Sorriso manchado de sangue

Não se enganem: já estamos vivendo uma guerra civil.

Falsos profetas

Que cristianismo é esse que pregam que para salvar a "família" precisam condenar os mandamentos?

No fim da curva

A gente ganha muita coisa pelo caminho, mas perde muita coisa também. De qualquer forma, "bebamos e comamos" em favor daquilo que nos tornamos - seja lá o que for.

Gol contra logo no primeiro tempo

Sem o conhecimento da Ciência Política (e da História), o nosso povo encara as eleições como uma grande partida de futebol: vestimos partidos e elegemos presidentes com o único intuito de vencer a disputa contra o "nosso rival". Todavia, longe de apenas angariar medalhas, taças e títulos, essa vitória põe em xeque todo o futuro do nosso país; ela determina, inclusive, as regras dos próximos jogos - fortalecendo-as ou, até mesmo, anulando-as. Mas como isso poderia ser diferente? Somos o país do futebol. A gente só quer ver gol.

Por uma reta passam infinitos pontos

Cada caminho que seguimos é intransferível, mas isso não quer dizer que não podemos compartilhar as nossas experiências com aqueles que amamos. Amar não é outra coisa se não isto: dividir momentos, criar laços, minimizar distâncias. No fim, por uma reta acabam passando infinitos pontos. Para Jhoicykelly Pessoa

Isso não é só uma Filosofia

A Filosofia do Retorno não é só uma Filosofia, é Arte. por: Jhoicykelly Pessoa

O ponto de chegada é o ponto de partida

Retornei ao mesmo ponto de onde parti há anos, mesmo sem ter tido intenção alguma em querer voltar. Pensei que se seguisse em linha reta, como sugerem os apóstolos do progresso, chegaria em outro lugar, distante, desconhecido, mas inteiramente novo e bem melhor do que o de antes. Pensei que se eu fosse firme em meu proposito, que não desistisse, apesar de todos os problemas e impasses que, por ventura, fosse enfrentar, o caminho me presentearia com sua linha de chegada, com aquela luz no final do túnel, com o tesouro no fim do arco-íris que todos estamos procurando. Mas a linha reta só me trouxe de volta ao ponto de onde parti quando ainda era um adolescente, ingênuo, cheio de sonhos, sem muitas cicatrizes pelo corpo. Nada aqui parece diferente: as casas, as árvores, as pessoas... reconheço tudo, como se o ano já não fosse 2018, mas ainda 2009. O que significa isso, afinal? Errei o caminho? Sou incapaz de prosseguir? Estou dando voltas no mesmo lugar? Lá longe, a mesma marca de p...

Apóstolos de ouro

Para todo messias é inevitável (e até mesmo necessário) a existência de um "Judas".

A longo prazo

Desconheço outra solução para o nosso país se não por meio de um maior investimento na educação. Qualquer candidato que não enfatize isso em seu plano de carreira é um embusteiro, um inimigo do povo, e não merece nossa atenção. A longo prazo, o futuro começa agora.

A caverna de Platão

Descobri que o que eu mais gosto em Platão não é nem a saída da caverna, mas o seu retorno. Desde então percebi que meus escritos, minha filosofia (se é que posso chamar assim), é uma filosofia do retorno. Considero de grande maturidade intelectual o desejo de voltar quando se está "bem afrente". O Compromisso que tenho comigo e com o outro me faz amar a caverna tanto quanto amo o sol fora dela.

Entre verdades e estantes

Partindo do pressuposto de que todo ato de conceituar classifica, em certa medida, um dado locus  da realidade, e que classificar é a atividade principal de todo fazer biblioteconômico, podemos afirmar o seguinte: todo filósofo é um bibliotecário do mundo e todo bibliotecário é o filósofo de sua unidade de informação.

Maioridade

Ouse escrever!

Eu te felicito e rogo teu perdão

Tu, jovem, que agora experimentas o sol fora da caverna, eu te felicito e rogo teu perdão. Eles te expulsarão sempre que quiseres voltar. Tudo o que te sobrou, portanto, foi o lado de cá. E aqui não existem cidades, grupos sociais, amigos. Todos somos nômades, orgulhosos, dispersos, cada qual com sua própria idiossincrasia. Descobrirás que um dia é, na verdade, manhã, tarde e noite. Que terás que conviver também com as tempestades e que faz muito frio fora da caverna. Com o tempo perceberás que mesmo o sol, com todo seu esplendor, não é suficiente para te esquentar e que, na verdade, era o fogo da caverna que fazia isso. Justamente aquele fogo que te iludia, que era artificial; aquele criado pelos homens. Eu te felicito e rogo teu perdão por isso. Talvez saberás mais do que antes, mas certamente serás mais infeliz.

Discorda de ti mesmo

Discordar de mim mesmo foi a melhor maneira que encontrei para concordar com aquilo que sou.

Imperativo contraditório

Todos os nossos atos são consequentes e consequências de. A (in)consequência não é outra coisa se não negligencia (má-fé) e incompreensão (ingenuidade). Todos somos igualmente culpados e inocentes de. Réus e vítimas. Impotentes e onipotentes. Tudo devemos, mas nada presidimos. Agir é um imperativo um tanto discutível; ser livre é uma superstição deveras categórica. Age de tal maneira que cada ação seja uma contradição. Aceita e rejeita a consequência dos teus atos de maneira que cada passo teu seja sempre um eterno retorno ao mesmo lugar. (Re)tornar jamais é um voltar de, mas sempre um (re)voltar-se para.

O humano tem data de validade

Convives com teu tédio enquanto ainda tens tempo.

O hábito faz um gênio

Gênio é só alguém que nunca desistiu e, mais do que qualquer outro, que sempre persistiu.

NÃO corram para as cavernas

Não dá mais para ser imparcial em relação a nossa situação política. Decretaram hoje o fim da ciência e da pesquisa no Brasil. O coroamento de um "mito" tornará o país refém do senso comum. Nunca se regrediu tanto em tão pouco tempo. Este pode ser o meu último post. Tá na hora de lutar.

'Eu só poderia crer em um Deus que soubesse dançar'

A crítica de Nietzsche ao socratismo, isto é, a tendência socrático-platônica de superestimar a razão, revelou – dentre outras coisas – a desvalorização do corpo pela cultura ocidental. Desde esses filósofos, o corpo passou a ser visto como a prisão da alma, a morada do erro e a fonte do engano; aquilo que impede de alcançarmos o conhecimento pleno, que nos afasta de toda e qualquer possibilidade de sermos sábios, deuses. No Medievo e na Modernidade, embora os conceitos sejam outros, a situação persiste: o corpo é a fonte de todo o pecado; aquilo que nos afasta de Deus, do Bem, do Céu e da vida eterna. O corpo é um mero instrumento, mecânico; aquilo que não sou de verdade, que não torna a minha existência possível. Com apenas algumas exceções, essa desvalorização do corpo irá se tornar o ponto de partida para qualquer investigação filosófica, religiosa e, até mesmo, científica realizada no mundo ocidental. Os desdobramentos que colhemos diante dessa perspectiva...

Enxerto

Nossas lembranças estão todas rasuradas. O tempo é o maior agente corrosivo. Não existe continuidade entre passado e presente. Somente a imaginação torna possível a memória.

a posteriori

Ensinem aos nossos jovens que é possível mudar de opinião de vez em quando; que ninguém nasce pronto e acabado; que escolher uma profissão demanda tempo e, na maior parte das vezes, diversas tentativas fracassadas; que errar no amor é humano; que ser adulto não te garante autonomia; e que planejar o futuro é bem diferente de romantizá-lo ou idealizá-lo.

Moleque sonhador

Gosto de quando me intitulam "otimista" ou "sonhador". A maior parte das pessoas passa a vida inteira para descobrir que são capazes de sonhar.

Epoché, "eu quero uma pra viver"

O perigo de toda ideologia é transformar um ponto de vista em religião. Ideias existem para serem contestadas, não para serem adoradas. 

Falsos ídolos

Nietzsche talvez foi o maior crítico da filosofia Socrático-Platônica. A ética socrática, centrada em ideais apolíneos, e a suposta transcendência que Platão funda com suas hipóteses inteligíveis, afirma o alemão, não passam de um aprisionamento da vida, das funções basilares que tornam possível a nossa própria existência como humanos, demasiado humanos. Todavia, ao analisar mais de perto a metodologia empregada por Nietzsche não podemos deixar de notar certas semelhanças com aqueles que mais criticou. Em sua obra "Crepúsculo dos Ídolos" ou "Como filosofar com o martelo", o filósofo insiste que é preciso auscultar os ídolos que seguimos para descobrirmos se são ocos, vazios em seu interior. É nesse sentido que devemos usar o martelo: com uma batidinha na porcelana e os ouvidos próximos demais podemos facilmente descobrir a consistência das esculturas que veneramos, que seguimos, que defendemos com todas as nossas forças. E no caso delas serem vazias, este mesmo mar...

Sobre o ato de ser livre e o mundo fora da caverna

Sair da caverna não é o suficiente: é preciso estar sempre atento para que o sentimento de liberdade não nos aprisione em uma outra. Imaginem a seguinte figura: um sujeito, crítico de seu contexto sócio-cultural, pertencente a grupos de destaque na sociedade, que persegue continuamente o mesmo eixo de discussão, criticando os oprimidos e dando vez aos silenciados. Esse impulso que manifesta sua coragem, seu brio, que o libertou há anos das prisões dos seus antigos opressores, agora o tornou cego demais para encarar as outras realidades, plurais, os meios-termos, as partes cinzentas, o que se escapa entre o seu antes e o seu agora. Esse sujeito, por se achar autônomo demais, livre da caverna, não percebe o quanto essa sua "liberdade" também o aprisiona do lado de fora; o quanto o seu discurso é ingênuo, de má-fé, igualmente opressor. Ao ter contemplado "o sol da verdade", esse sujeito segue julgando que toda noite é falsa, que a escuridão também não faz parte do dia...

Dedicatória vitalícia

Para que fique registrado: todos os meus escritos foram e sempre serão dedicados a Jhoicykelly, meu único amor.
O maior problema da Ciência no Brasil (assim como o da Filosofia) é não ser brasileira. Você discute com dois ou três estudiosos dessas grandes áreas e quase se sente na Europa, tomando chá e se agasalhando do frio. Até se esquece que é negro, vai pegar ônibus lotado e voltar para a favela.

Entre decrépitos e imaturos

A "ciência" promovida no interior das universidades brasileiras possui um problema de mão dupla: a má-fé dos pesquisadores mais velhos e a ingenuidade dos mais novos.

Sobre a importância do Crátilo

O Crátilo de Platão é um diálogo sobre o ato de conceituar. Quem ainda não percebeu que, para os antigos, "nomear" é o mesmo que "conceituar", jamais entenderá o verdadeiro valor desse texto para a contemporaneidade. Dito isso, importantes pensamentos de certos filósofos do nosso tempo (como Deleuze e Guatarri, por exemplo) não passam de "notas de rodapé" do filósofo grego.

A arte como religião

Defendo a arte como religião. Como  religare . Como mediação. Como retorno. Mas retorno de quê? O que, afinal, se perdeu? E quem perdeu o quê? O homem perdeu algo. Ele se perdeu. Deixou algo para trás. Mas foi Deus? A arte tem haver com Deus ou Deus é que mata a arte? Se sim ao segundo caso, o que foi que o homem deixou para trás? A sua própria 'humanidade'? 'Humanidade' não é só um conceito vazio? E a arte trabalha com conceitos? A arte trabalha com sensação. A arte religa o homem a uma sensação. Uma experiência? Uma vivência há muito perdida? Defendo a arte como religião. Religare dos sentimentos esquecidos, silenciados, destruídos. Mas quem destruiu os nossos sentimentos? Foi Deus ou nós mesmos? Destruímos com o quê? Com as nossas próprias mãos? Com a nossa razão? Com a Filosofia? Com a Ciência? Com os conceitos? Destruímos algo em nós com os conceitos? Mas se a arte é um retorno ao que destruímos, esse algo não pode ter sido destruído. Foi esquecido. Foi silenciado....

Reação é ação

É triste, mas certos cavalos só se movem a chicotadas.

Mais atos, menos palavras

Nem uma infinidade de palavras é capaz de suprimir a importância de um abraço. Em vez de curtir ou compartilhar essa mensagem você pode, por favor, abraçar a pessoa ao seu lado?

Gotas de sofrimento

Nunca julgue a fraqueza dos outros pela força que você possui dentro de si. Cada um de nós possui uma taça que é preenchida com o sofrimento que recebemos durante o nosso cotidiano: um olhar de rejeição, uma palavra hostil, um abraço não dado, um amor perdido... Como somos diferentes uns dos outros, o tamanho dessas taças varia de pessoa para pessoa. Às vezes, o que para alguns são apenas gotas no fundo do copo, para outros era tudo o que faltava para transbordar uma taça já preenchida até a borda.

Vivo sem a arte ou resolvo finalmente morrer por ela?

E essa minha veia artística que insiste em pulsar mesmo depois do derrame? Coitada, já anda tão entupida de criatividade que o melhor seria realizar uma cirurgia e desobstruí-la ou removê-la de dentro de mim, a força. É uma escolha que terei que fazer, cedo ou tarde; não dá para postergar mais. Vivo sem a arte ou resolvo finalmente morrer por ela?

Estão jogando com as pessoas

Estão jogando com as pessoas. Políticos, médicos, psicólogos, líderes religiosos, policiais, professores... Eles sempre têm um jeito certo para tudo e quase nunca é o nosso. Somos os delinquentes, doentes, inúteis, ignorantes, de-fi-ci-en-tes. São sempre os adultos, possuem a última palavra em todos os assuntos. Mas em favor de quê fazem isso? Em favor de quem? Quem eles seriam sem nós? Onde estariam os seus poderes sem as nossas "fraquezas"? Eles não são fortes justamente  em função das nossas fraquezas? Somos realmente os fracos? Não. Estamos em um jogo. Eles estão jogando com cada um de nós.

Avanços ou retrocessos?

Os pós-modernos acusam a Metafísica de trabalhar com conceitos vazios. Afirmam quem em tempos como os nossos, de grandes "esclarecimentos", discutir termos que não possuem qualquer referencial objetivo é um verdadeiro retrocesso para a razão. Mas olhem bem as pessoas nas ruas, reparem em seus problemas sociais, econômicos, existenciais. Percebam quantos conflitos elas têm que enfrentar diariamente, de uma fila a outra do banco, de um ônibus lotado a outro mais lotado ainda, do medo da multidão a tristeza de viver sozinho. Vejam quantas crises de ansiedade, quantas noites mal-dormidas, quantas lágrimas de angustia, quanta depressão, quando suicido! A crise em que elas vivem pode ser, de fato, superada por meio dos "esclarecimentos" da razão? Do distanciamento da fé? Do ato de se livrar desses conceitos vazios? E a esperança, por ventura, não será apenas mais um desses conceitos? Metafísicos? Inúteis? 

Cogitare aude!

Os modernos julgaram que, após os quatorze séculos da "idade das trevas", a humanidade poderia finalmente alcançar a maioridade do pensamento. Por querer se ver livres de dogmas e verdades pré-estabelecidas pela igreja, declararam a importância de destruir nossos falsos ídolos e de construir o conhecimento em bases científicas seguras, de caráter indubitável. Incentivaram "ousar saber" ( sapere aude ) sem enfatizar a premência de primeiro "ousar refletir" ( cogitare aude ) sobre aquilo que queremos ou como queremos conhecer. O  ato de conhecer necessita de uma reflexão prévia: para que? Para quem? Para quando? Quem quer também? devemos realmente conhecer? devemos divulgar aquilo que conhecemos? Sem essas perguntas corremos o risco de estabelecermos novos dogmas, novas verdades, novos ídolos. Considero, portanto, como tarefa principal de nosso tempo, voltarmos alguns passos na nossa busca desenfreada por conhecimento; considero que devemos ousar refletir ....

"iconoclastia"

Ser iconoclasta hoje em dia não é mais uma tarefa tão difícil. Existem certos grupos, por exemplo, que o politicamente correto é levado tão a sério que generalizar tornou-se um verdadeiro ato de rebeldia. O uso de aspas se tornou o novo modo de apresentar eruditismo. Permita-se conversar sem elas um só momento e veja o quanto te apontam como transgressor das normas vigentes. Caberia um par de aspas nas palavras que encerraram a frase anterior, mas resolvi encerrar essa reflexão como inimigo do povo.

Em tempos líquidos, saber dizer é mais importante do que saber porquê.

Que seja dito: em textos acadêmicos (para não dizer na própria Ciência), a coerência vale mais do que a conclusão. Isso explica porque aquele projeto sem fundamentação teórica acabou passando na prova de doutorado e o seu não. Em tempos líquidos, saber dizer é mais importante do que saber porquê.

Minha mãe

Quando eu resolvi ser músico, compor e aprender a tocar algum instrumento, minha mãe acreditou em mim. Sem medir esforços comprou um violão, uma guitarra e até mesmo uma bateria. Quando eu resolvi que queria ser poeta e escritor, minha mãe também acreditou em mim. Sem medir esforços se dedicou a ler tudo o que eu escrevia, mesmo sem entender muita coisa. Quando resolvi ser professor de Filosofia e seguir carreira acadêmica (graduação, mestrado e doutorado), minha mãe acreditou mais uma vez em mim. Sem medir esforços fez dívidas no cartão, compro livros e mais livros e mais livros. Quando tentei o Enem para Biblioteconomia, minha mãe novamente acreditou em mim. Sem medir esforços rezou uma centena de vezes para que eu ingressasse em meu segundo curso de graduação na UFPE e fosse tão feliz quanto fui no primeiro. Não teve uma vez em toda minha vida que minha mãe não acreditou e mim   —  mesmo eu escolhendo tantos caminhos estranhos. Não teve uma só vez que ela não tenha largado ...

Eu sou o meu passado

Eu sei que já foi dito, mas vale a pena repetir: valore suas raízes. Aquele que sabe exatamente de onde veio jamais se perderá em seu caminho.

Sofistas modernos

Há alguns anos, quando eu redigia o meu TCC em Licenciatura em Filosofia, minha preocupação se encontrava na Metodologia do Ensino de Filosofia para alunos do Ensino Médio. Lembro de argumentar no TCC sobre os problemas das aulas de Filosofia serem centradas na mera troca de opiniões e de como isso poderia ocorrer o efeito da Filosofia, isto é, promover no aluno a aversão a discussão filosófica (misologia). De fato, sempre que presencio a aula de Filosofia ministrada por pessoas não formadas na disciplina (ou que são formadas, mas que fazem da sala de aula um ringue de opiniões), percebo que aquela minha preocupação de antes ainda se encontra presente. Já estou cansado de ter alunos em PRÉ-ENEM que saíram do Ensino Médio detestando a disciplina pelo simples fato do professor não ter ministrado conteúdo algum e apenas ter colocado-os para discutir suas crenças. As vezes, o que é ainda pior, alguns me dizem que esses "sofistas" promoviam o bulling sempre que a crença ou a opin...

Senhor, se possível, afasta de mim esse cálice

Só não espero morrer na frente de um computador, escrevendo. Ainda mais se for um texto acadêmico, valha-me Deus! Não me entendam mal, amo escrever. Só considero a morte um evento importante demais para se viver enquanto estou realizando uma ação que passei minha vida inteira fazendo.

Silêncio

Quando as palavras são insuficientes para transmitir tudo aquilo que sentimos, o silêncio se torna a melhor forma de expressão.

(L(ei))a

Leia de tudo. Se não pelo seu caráter normativo, pelo seu aspecto formativo.

Entre bares e igrejas

O país se encontra dividido entre bares e igrejas. Nas avenidas do meu Brasil, um corpo que ousa evitar qualquer um dos dois lados da calçada acaba morrendo atropelado.

Entremeio

Conheci dois grandes homens que eram antípodas. O primeiro era um consumidor inveterado de literatura, mas desprezava a leitura de textos acadêmicos. O segundo, ao contrário, por valorizar demais os artigos, as dissertações e as teses, acabava por deixar de lado os escritos literários. Com esses dois grandes homens aprendi que poderia ser um terceiro: entremeio.

Pessoas não são coisas

Você costuma achar que certas pessoas são entediantes? Acredite, isso é mais um problema seu do que do outro. O filósofo alemão Martin Heidegger, no século passado, elaborou um importante tratado sobre o tédio, apontando como uma de suas principais causas o fato das coisas, de vez em quando, não se apresentarem como esperamos que elas se apresentem. Isso porque, diferente dos seres humanos, as coisas possuem uma essência pré-definida que as determinam ser de um modo e não de outro. Pensemos em um apontador de lápis: esse objeto só pode ser o que ele é se, de fato, conseguir realizar sua tarefa. Quem fabrica um "apontador de lápis" o faz por ter em mente a esse desse objeto, isto é, aquilo que faz com que ele seja o que ele é e não outro. Nos entendiamos, portanto, quando algo não realiza aquilo que ele foi feito para realizar ou, em outras palavras, não age de acordo com sua essência. O exemplo que Heidegger oferece é o de uma estação de trem. Ficamos entediamos quando temos...

O que há por trás da empatia?

Que critérios de seleção há por trás da empatia? O que há em mim e o que há em você que nossa singularidade seja tolerada, querida ou indispensável um pelo outro? Como montamos essa articulação em fração de segundos (ou, talvez, até de milésimos)? A resposta só pode ser instintiva, emocional, corporal. A razão, por ela mesma, sempre parece enfraquecer, depreciar, hostilizar, assassinar o outro. Isso porque todo ato de conceituar (que é imanente ao próprio pensamento) de-limita os seus objetos de ação. Com a razão toda relação se torna sempre incompleta. O outro está fadado a ser palco de observação; a distância, em sua (in)significante (in)dividualidade. Que critérios de seleção há por trás da empatia? Não há critérios. Só instinto, emoção e corpo.

Eu, professor de Filosofia

Há algo na Filosofia que faz dela um instrumento significativo de mudanças na vida dos adolescentes que a estudam no Ensino Médio. Não existe tempo mais conturbado do que esse meio termo entre a criança e o adulto: quantas coisas diferentes não ocorrem em nossas vidas em tão pouco tempo? A consciência de que o mundo é bem maior do que nosso lar ou a descoberta de zonas erógenas em nosso corpo causa um sem número de momentos difíceis que enfrentamos das maneiras mais inusitadas. A morte que cedo ou tarde chega e que agora passa a nos fazer sentir não mais pertencentes a esse mundo de ilusões que tanto adorávamos, que tanto nos fazia feliz, que acreditávamos ser infinito, eterno, imutável. O outro que nos olha, nos atormenta, nos julga, nos oprime, nos machuca e que exige nosso posicionamento, nossa opinião, nosso fortalecimento, nossa "adultificação" prematura. E em meio a tudo isso, claro, a Filosofia (mais do que qualquer outra disciplina que estudamos na escola) parece ent...

Convicções políticas

Não quero que meu silêncio deixe passar despercebido as minhas convicções políticas. Sou negro, pobre, filho de pobres que nunca foram a universidade e desconhecem o que significa o termo "tcc". Sou professor de Filosofia, matéria esquecida e continuamente excluída no Ensino Médio (não por acaso). Moro em uma periferia, pego ônibus todo dia, tenho risco de ser assaltado ou morrer em hospital público. Por conta disso eu não poderia ser outra coisa se não de "esquerda". Não poderia ser outra coisa se não "Lula".

A genialidade é filha da experiência, não do acaso

Nunca gostei de rotular ninguém como "gênio". Isso parece ser mais uma desculpa para tirar o outro da competição, para afirmar que ele não faz parte do mesmo universo que eu, e que por mais que eu tente, serei incapaz de chegar aonde ele chegou. Sim, as pessoas possuem aptidões diferentes. Mas elas só chegam lá com bastante esforço (exceto alguns pequenos casos, mas não devemos trabalhar com exceções), não existe outra receita para alcançar nossos objetivos. O "gênio", na maior parte das vezes, passou horas estudando, treinando um instrumento, repetindo sempre os mesmos golpes, se dedicando cada dia um pouco mais, enquanto você ficava aqui durante horas lendo bobagens que eu ou qualquer outra pessoa escrevia no Facebook.

A importância da analogia para o professor de Filosofia no Ensino Médio

A analogia é um recurso linguístico imprescindível para aqueles que querem explicar conceitos filosóficos. Ainda mais se o seu público são alunos do Ensino Médio que quase não tiveram contato algum com a filosofia durante toda a sua vida. Como ninguém é uma lousa em branco e todos os dias a vida encontra um jeito novo de nos oferecer experiências ainda inéditas, cabe ao professor retomar tais vivências e relacioná-las com os conceitos filosóficos. Recentemente, por exemplo, para explicar o que Sócrates e Platão entendiam por DIALOGAR, recorri ao ato de brincar em uma gangorra. Para que haja diversão é necessário que as duas crianças estejam dispostas a ceder o momento da subida, criando um acordo em prol de um objetivo em comum. Nesse sentido, as crianças só podem brincar de gangorra com seus amigos ou aqueles que estejam, de fato, dispostos a manter o acordo até o fim da brincadeira. O mesmo acontece com o diálogo. DIALOGAR nada tem a ver com DISCUTIR. O diálogo pressupõe sempre duas...

Síndrome do messias

Alguns professores de universidades (para não dizer a grande maioria) possuem aquilo que gosto de chamar de "síndrome do messias". Eles acreditam que a disciplina que ministram é a mais importante de todas, esquecendo de demonstrar qual é a sua verdadeira função (ou simplesmente sua ligação) dentro do corpus  de disciplinas que compõe o curso. Os alunos acabam se formando sem serem capazes de relacionar os assuntos mais triviais, mas tornam-se quase  experts em identificar discursos de poder.

A maior descoberta de Marcílio Bezerra Cruz

Dado as trágicas, porém cômicas reviravoltas da vida, só posso chegar a uma simples conclusão: Deus é comediante. Para mim não há verdade mais indubitável.

Dois pesos, duas medidas

A ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) nos obriga a apontar de onde tiramos as ideias que colocamos em nossos textos. Isso deve ser feito mesmo se as palavras não forem postas ipsis litteris , isto é, ao pé da letra (isso se chama "citação indireta"). Caso não façamos isso, podemos ser acusados de PLÁGIO e destruiremos todo nosso currículo acadêmico e, por conseguinte, nossa vida profissional. Todavia, se algum erudito famoso faz o mesmo, acusam-no de INTERTEXTUALIDADE, um conceito criado exclusivamente para salvá-lo da democratização da lei. É o famoso caso de dois pesos, duas medidas.

O tão antigo valor do meu desconhecimento

Leio porque me desconheço e se há outro motivo para ler, desconfio.

A natureza (i)moral do homem

Não se enganem: escolhemos por meio da moralidade somente aquilo no qual queremos ser (i)morais.

Por uma outra perspectiva

A verdade é que a incompletude não é de todo ruim: textos fragmentados, justamente por terem perdido seu caráter de objetividade, expandem sua possibilidade de interpretação quase ao infinito. Quando delimitamos bem o que queremos dizer, acabamos impossibilitando todas as outras possibilidades daquilo ser dito. Fico pensando, por exemplo, nas pessoas que lamentam a sorte dos escritos dos filósofos pré-socráticos, que chegaram até nós apenas por meio de fragmentos. Mas não foi justamente as suas incompletudes que tornaram possível as teses de outros grandes filósofos?

Nossas esposas

A cultura machista destacou os aspectos de Sócrates como se fossem de um herói e os de Xantipe como os de uma vilã. Exatamente como ainda vemos nossas esposas, mães dos nossos filhos.

Elogio à Xantipe

Os motivos que levaram Xantipe a ficar conhecida na história foram bem diferentes daqueles que transformaram seu marido, Sócrates, no marco da filosofia. Sendo mulher, dona de casa e mãe de dois filhos na Grécia, Xantipe dependia completamente do marido para sobreviver. Não tinha voz em praça pública, não podia lutar por direitos, não podia trabalhar para ganhar seu próprio sustento, era tão importante quanto um escravo que pertencia ao seu senhor como um objeto qualquer. Dia após dia, enquanto presenciava a fome dos seus filhos, esperava o marido retornar de suas longas conversas filosóficas. As vezes somavam semanas sem o marido por os pés em casa porque estava debatendo o valor da virtude com homens sem virtude alguma. Como ela detestava a filosofia que fazia do seu marido um escravo da reflexão! Não entendia como ele dialogava sobre tantos temas (morte, verdade, amor, coragem, virtude...) e deixava de refletir o mais essencial: se era um bom marido/um bom pai ou não. Era tão bem c...

A história e o seu processo de (des)ontologização da linguagem

A história da humanidade também pode ser entendida também pode ser entendida como a história da desvalorização conceitual da linguagem.

Regime mental

Ler, aprender, escrever e ensinar: uma dieta para a mente.

Esclarecimentos sobre Metafísica e Transcendência

Outra coisa que não parece ser tão clara para os estudiosos da filosofia é a relação entre a Metafísica e a Transcendência. Esses dois conceitos, conquanto tenham uma importante relação na história do ocidente, não são sinônimos e não devem ser tratados como se estivessem necessariamente conectados. Embora o termo "Metafísica", do grego, signifique "o que se encontra além da phýsis ", ele não deve ser compreendido como o estudo dos entes que transcendem (que estão fora) (d)a natureza, mas sim como o estudo dos entes que, apesar de estarem presentes ou não na natureza, não podem ser compreendidos a olho nu. Foi algo que Nietzsche percebeu muito bem quando afirmou que o grande feito realizado por Tales foi notar que, apesar da multiplicidade divergente de coisas que o cercavam, havia uma unidade que permanecia, subsistente, e que não se apresentava diretamente aos nossos sentidos. Todos os filósofos a partir dele seguiram o mesmo raciocínio: buscaram encontrar, diant...

Notas sobre o ato de conceituar

Após longos 2700 anos de história, a pergunta "O que é a filosofia?" ainda se apresenta como um imponente desafio para os seus estudiosos. Muitos, infelizmente, apenas propõem reformulações de teses já bem antigas e consolidadas, como se pudessem fazer esquecer (com o arranjo de novas palavras) os feitos daqueles que se tornaram imortais. Uma pequena parcela, entretanto, ainda se dispõe a tentar responder a essa pergunta de forma minimamente original: na década de noventa, por exemplo, dois dos mais importantes pensadores do século XX (Gilles Deleuze e Felix Guatarri) formularam uma resposta bastante interessante. Eles afirmaram que a filosofia, diferente dos outros instrumentos do conhecimento humano (como a arte, a religião e até a ciência), é única que pode "formar, inventar e fabricar conceitos". O ato de conceituar, nesse sentido, deve ser entendido como a tentativa de comprimir uma realidade em termos, isto é, formular com palavras aquilo que mais parece se a...

O Brasil é de Vernant

Em seu célebre livro "As Origens do Pensamento Grego" (1982), Jean-Pierre Vernant expõe duas visões acerca do surgimento da filosofia: de um lado, a posição de John Burnet de que o pensamento filósofico teve sua origem como um "milagre grego" e que teria se formulado como uma explicação do mundo oposta aquela proposta por mito, se contrapõe a tese de Frances Cornford no qual a construção do logos filósofico se deu de modo gradativo, a partir dos elementos basilares do pensamento mítico e sem nunca se desprender inteiramente dele. Conquanto a teoria de ambos tenha adquirido um número de adeptos similares em todo o mundo, no Brasil se tem a propensão a aceitar a ideia de que a filosofia seja definida como o exato oposto do mito, isso porque Vernant, que talvez seja o comentador de filosofia antiga mais estudado no país, acabou seguindo a concepção de Burnet em seus escritos. Basta notarmos que o próprio governo federal mandou publicar e distribuir exemplares de texto...

Rede de influências

Por muito tempo, alguns períodos de transição na história da filosofia (sobretudo aqueles marcados por grandes mudanças paradigmáticas), foram interpretados com ingenuidade e má-fé por parte dos pesquisadores. Alguns, na falta de uma leitura mais aprofundada dos acontecimentos históricos, acreditavam em verdadeiros "milagres", como se existisse um espaço intransponível entre o antes e o depois. Outros, não querendo atribuir a glória aos que também contribuíram para a superação de um determinado paradigma, focavam sua atenção apenas naqueles que reuniam e sistematizavam as novas descobertas. Encontramos exemplos desses dois tipos de posicionamentos tanto em relação ao "início" da filosofia, quanto na passagem do Medievo para a Modernidade. Até hoje se fala em um "milagre grego", como se não fosse possível encontrar elementos da filosofia já presente nos mitos e na cultura grega de um modo geral. Não é por acaso que Aristóteles, em uma passagem da Metafísic...

Lembranças e cimento

Certo dia, uma professora e pesquisadora do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal de Pernambuco (a qual eu estimo muito) me perguntou qual era a minha pretensão em seu grupo de pesquisa que tratava essencialmente de temas relacionados a Humanidades Digitais. Expliquei que quando eu era mais novo e meu pai me convidava a ajudá-lo com os ofícios de pedreiro, nunca pude contribuir da maneira que gostaria, por conta da minha notável inabilidade com serviços práticos. Todavia, havia algo que sempre me chamou a atenção em serviços como aquele: o modo como era preparado as massas de cimento. Eu sempre me impressionei com o fato de que a mistura de certos componentes poderia formar uma substância que viria a ser principal responsável pelo sustento de toda uma estrutura. E foi no que eu ajudei: jamais na linha de frente da construção, apenas lá trás, no preparo das massas. Respondi, portanto, que assim como naqueles tempos de infância, o que eu pretendia contribuir para...

Onde (sobre)vivo

Meu lar é feito de tinta; suas paredes são de papel. Embora pareça ser um limite concreto no tempo e no espaço, não há um dia em minha vida que eu não me sinta infinito, atemporal.

Aprendi com Platão a deixá-lo

Sempre defendi que a filosofia proposta por Platão era centrada no "caminho", nunca na "chegada". Isso significa que longe de ser aquele filósofo criador de sistemas, rigoroso e dogmático (que o neoplatonismo grego e cristão ensinou a história), ele é, na verdade, um pensador cético, que não tem problema em repensar suas teses, caso elas se apresentem aporéticas. E não poderia ser diferente: foi, sem dúvida, o maior discípulo de Sócrates e, como tal, sabia mais do que qualquer outro que "uma vida sem busca não é digna de ser vivida". O erro da maioria se encontra na leitura isolada de alguns dos seus diálogos (sobretudo aqueles escritos em sua maturidade), sem perceber o próprio movimento dialético presente em todo o corpus de sua obra, desde a juventude até a sua velhice. Platão não tinha medo de errar: sempre foi ele o maior crítico de si mesmo. Isso porque o homem, enquanto vida (junção da alma com o corpo) jamais será um ser completo e por mais que te...

Divórcios

Talvez eu tenha passado tempo demais procurando respostas sobre mim mesmo em uma filosofia existencialista de matriz subjetivista, monomaníaca e aporética. Além de adotar certo dualismo ontológico caduco, optava por estudar apenas um dos seus dois lados. Talvez esteja na hora de encarar a vida como um monista que enxergar a consciência-de-si e a consciência-do-mundo como coisas complementares, intercambiáveis. Talvez esteja na hora de abrir mão de certos paradigmas há muito enraizados e buscar novos caminhos que até então eu considerava intransitáveis. Não me importo de abrir mão de casamentos antigos se os novos me trazerem respostas. 

Pequeno tratado sobre a razão

Para mim, a filosofia deve ser uma poesia sem métrica.

A poesia precede a filosofia e a ciência

Em meus escritos, o rigor lógico da argumentação filosófica nunca irá substituir as brechas "relativistas" e "subjetivistas" encontradas em um texto poético-literário. Isso porque quando escrevo (e talvez apenas nesse momento) não procuro me comunicar com as grandes massas, mas com cada sujeito (leitor) em particular. Por isso quando me perguntam se meus textos são mais filosóficos ou científicos (inclusive os acadêmicos), respondo que são, antes de tudo, literários.

Sou um romântico das palavras

Não escrevo uma linha sem coração. As palavras em minha vida não são feitas de flatus vocis , mas de carne, osso e sangue. A página em branco, ausente de letras, já esconde as estórias que se encontram ali, presentes. Meu papel como escritor, assim como o de um grande escultor, é revelar a imagem que está escondida por detrás do mármore bruto. Sou um romântico das palavras e não nego; esse é o meu jeito peculiar de me encontrar com Deus.

O niilismo não vai durar

Apesar de compartilhar das incertezas e das descrenças vigentes em meu tempo, encaro o futuro com muito mais otimismo do que se espera de um aspirante pensador "pós-moderno". Sim, vivemos em tempos de crises, mas não fomos os únicos a sentir esse "mal-estar da civilização" e é necessário estarmos atento a isso. Penso nos tempos conflituosos da poesia e da filosofia nos séculos VII-V a.C.; do sincretismo cultural entre as tradições indo-europeia e semita nos séculos III a.C.-V d.C.; da crise do cristianismo diante do renascimento, da reforma protestante e da revolução científica; do contraste entre o cientificismo pregado pelos iluministas e as grandes guerras que assolaram a terra. O que vivemos hoje é apenas mais um hiato entre duas grandes épocas. Um sistema que não se adéqua mais, exigindo o nascimento de um outro. Tempos de transição são mesmo marcados por dúvidas, medos, anseios, conflitos, oposições, resistências e (por que não?) esperanças.

Um pé atrás por segurança

Como postura filosófica prefiro assumir certa desconfiança para com a própria filosofia (minha querida). Um ceticismo inaugural, pirrônico, não aquele acadêmico, oferecido por Espeusipo, Xenócrates e Sexto Empírico. Apresento a minha filosofia como UM caminho, UM instrumento, UM meio. Não o ÚNICO ou o MELHOR, mas também não o PIOR. Apenas mais um e um tão bom quanto qualquer outro. Acho que os tempos de grandes convicções já passaram.

Nem oito e nem oitenta

Shadow of the Colossus é a prova irrefutável que, conquanto gostemos de objetividade em nossas vidas, também adoramos perder tempo com coisas secundárias.

Quem vê capa não vê conteúdo

Os livros deveriam indicar em suas lombadas a faixa etária que correspondem o seu conteúdo. Alguns, por exemplo, exigem uma elevada maturidade intelectual; outros, por outro lado, nenhuma.