'Eu só poderia crer em um Deus que soubesse dançar'

A crítica de Nietzsche ao socratismo, isto é, a tendência socrático-platônica de superestimar a razão, revelou – dentre outras coisas – a desvalorização do corpo pela cultura ocidental. Desde esses filósofos, o corpo passou a ser visto como a prisão da alma, a morada do erro e a fonte do engano; aquilo que impede de alcançarmos o conhecimento pleno, que nos afasta de toda e qualquer possibilidade de sermos sábios, deuses. No Medievo e na Modernidade, embora os conceitos sejam outros, a situação persiste: o corpo é a fonte de todo o pecado; aquilo que nos afasta de Deus, do Bem, do Céu e da vida eterna. O corpo é um mero instrumento, mecânico; aquilo que não sou de verdade, que não torna a minha existência possível. Com apenas algumas exceções, essa desvalorização do corpo irá se tornar o ponto de partida para qualquer investigação filosófica, religiosa e, até mesmo, científica realizada no mundo ocidental. Os desdobramentos que colhemos diante dessa perspectiva foram vários e, em sua maioria, degradantes. Com ela, a verdade reside sempre no que nos transcende, em outro âmbito, longe de nós, da nossa vida, em um mundo ideal. Em paralelo a isso, a história do ocidente – mutatis mutandis – também pode ser encarada como a história da desvalorização do sexo feminino. Desde os gregos até os nossos dias, a mulher sempre foi vista como incompleta, imperfeita, heterônoma, pecadora, instrumento de uso; aquela que não é homem, o segundo sexo. O interessante é notar como a sua desvalorização possui uma ligação direta com a desvalorização do corpo. Para os pitagóricos, por exemplo, na tabela dos opostos, o macho estava conectado a razão, ao que é bom, a luz, ao uno; já a mulher, ao corpo, ao que é mau, a escuridão, ao múltiplo. Foi de Aristóteles (apenas resumindo o pensamento do seu tempo) que herdamos os "argumentos" pelos quais as desvalorizamos: na procriação, a mulher é da mulher que herdamos a matéria, isto é, o corpo, e do homem a forma, ou seja, a alma. Na Idade Média isso persiste, enquadrando-se aquilo que podemos ler no livro do Gênesis: herdamos o pecado original da mulher, por meio do corpo, enquanto que a alma vem do esperma masculino. No imaginário popular, Deus (o que há de mais abstrato) é uma figura masculina; já a terra (o que há de mais concreto), quando queremos ilustra-la, quase sempre é a deusa mãe. Na Modernidade, com o dualismo cartesiano, a mulher torna-se um instrumento, mecânico, sem vontade própria; extensão do homem e dos seus afazeres. No século das luzes, apenas os homens poderiam ser "esclarecidos"; a mulher que ousasse se revelar contra sua própria natureza, corpórea, submissa, ia para guilhotina. Herdamos essa concepção desde tempos remotos e seguimos desvalorizando a mulher com a mesma lógica que ainda acredita ser a razão o ponto central da humanidade. Ainda não sabemos se desvalorizamos a mulher por causa do corpo ou se desvalorizamos o corpo por causa da mulher.

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