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Mostrando postagens de 2020

Invisível, mas tão presente

Considero Walt Whitman como um dos mais destacados poetas da humanidade. Seus textos são repletos daquela características que suponho indispensável na arte: a capacidade de nos religar ao nosso próprio ser - animalesco, instintivo e carnal. Sua voz resguarda um timbre religioso, consumido quase que integralmente em meio aos ruídos da plutocracia que impera diante de nós. Ele é um poeta do porvir e as bem fornidas prateleiras das bibliotecas ainda não são capazes de suportar a leveza da sua relva. A alma erudita se mostra insensível a umidade dos seus versos tão escorregadios. A sua musa transita entre nós, maltrapilha e abandonada; ela se embriaga junto aos corpos rejeitados e esquecidos pela multidão. Seu canto exorta a planta que agora cresce em minha janela, mas despreza qualquer princípio metafísico que queira se assumir como condição indispensável para tamanha beleza. Seu grito instiga guerra, o pólemos de onde tudo tem origem e no qual tudo tem seu fim. Ninguém foi mais long...

Plantas epífitas

 Eu só sou um poeta intimista, o resto finjo ser.

Figuras híbridas

Nunca me senti pertencente a um grupo, por mais que as pessoas se apresentassem semelhantes a mim. Os que cresceram comigo, por serem simples demais, não entendiam minha sede de ideais; meus sonhos eram inusitados, demasiados, teomaníacos, atípicos. Algo sempre me puxou adiante, para além da fina membrana que separa o céu das estrelas. Os que me conheceram depois, por serem complexos demais, não corresponderam a minha calmaria; meus desejos sempre foram banais, corriqueiros, ordinários, beiram quase o trivial. Algo detém meus passos, tal como um núcleo gravitacional que não me deixa flutuar, por mais que o espaço flerte comigo. Os que ainda estão por vir, por não me conhecerem, irão estranhar a ambiguidade dos meus discursos e, em especial, o paradoxo que configura meus atos. Que corpo pode, simultaneamente, ocupar dois lugares no espaço? Quem, além de mim, tem os pés no barro e a cabeça nas nuvens? Minotauros, Centauros, Sátiros, Esfinges... figuras híbridas que, apesar de fazerem par...

A escuridão tem muito o que nos ensinar

Lá na caverna, em meio escuridão, tudo parece ser um só. É difícil distinguir os objetos e nomear, com precisão, tudo aquilo com que relacionamos. Todavia, é um ótimo momento para aprender a usar os outros sentidos - para além da visão - e até, quem sabe, desenvolvê-los melhor. Em meio as trevas da noite, a sobrevivência depende da audição. Ouvir, talvez, seja um ato mais instintivo do que enxergar - não é a toa que, quando dormimos, os olhos fecham, mas os ouvidos continuam abertos. Devemos aprender, portanto, com a escuridão como ouvir com maior precisão os ruídos e os sons de tudo aquilo que nos cerca e, assim, quando clarear o dia, poderemos contemplar com mais nitidez aquilo que se encontra diante dos nossos olhos. Afinal, tudo é um só.

Oxalá ser conhecido como poeta

Oxalá que o futuro não reserve a mim o título de filósofo. Não porque sou contrário aquilo que esse título representa e sempre representou na sociedade, mas porque, de fato, minha práxis  intelectual se apresenta melhor como arte, como poesia. Sou um poeta que brinca/brinda com a filosofia; sou um artista que, inspirado pelas musas, tece críticas sobre a realidade. Minha racionalidade, quase sempre aguçada, é, na verdade, fruto da minha sensibilidade aflorada, dos sentidos astuciosos e, em especial, da mania  que me arrebata incessantemente em direção ao Ser. Oxalá, no futuro, ser conhecido como poeta; como alguém que foi tomado pela arte e não parou de sentir. 

Entremeio II

Conheci dois grandes estudiosos de Platão que eram antípodas. O primeira era um intelectualista, que o tomava como defender de uma filosofia profundamente segregaria. Já a segunda, por valorizar as questões revolucionárias, acabava por tornar o filósofo um marco do pensamento progressista e libertador. Com esses dois grandes estudiosos aprendi que poderia ser um terceiro: entremeio .

Antinarciso

  Eu queria aprender a conviver com minha própria solidão. Me encarar de frente, olhar em meus olhos, padecer minhas dores e gozar minhas alegrias. Eu queria saber lidar com a ausência, a saudade, o vazio, o espaço que há entre dois corpos. Me tomar pelos braços e conduzir minha existência de volta aonde ela se perdeu. Em vez disso eu fujo, me escondo, desapareço entre olhares, sorrisos, corpos e toques. O fluxo diante de mim dissipa minha atenção em mil pedaços e suporto o peso que é conviver com uma alma inteira. Mas não há como permanecer vivendo sempre presente; é necessário, por vezes, se esvair. Se entregar ao vazio do meu interior, namorar a solidão, abraçar a morte e ousar deixar de ser.

Uma guerra contra espelhos II

Nietzsche chama os diálogos da juventude de Platão - que são notadamente aporéticos, céticos e antidogmáticos - de "diálogos insignificantes" e "diálogos estéreis". O filósofo alemão deixa de lado esses textos fundamentais que ressaltam o caráter zetético dos corpus platonicum - herdados a partir do contato com Sócrates e da aporia implícita no fato de saber apenas aquilo que não se sabe. Nietzsche bate em espelhos. O Socratismo - e, por conseguinte, o Platonismo - é a sua outra face; é seu próprio inconsciente. Ele cria imagens de inimigos em possíveis amigos, daí enfrenta quimeras que só existem em seu próprio pensamento.

Entrai pela porta estreita

O processo de conversão ao Cristianismo exige muito mais do que uma simples afirmação (eu aceito!) diante da superioridade e da grandiosidade de Jesus, mas uma profunda transformação na maneira como o individuo se relaciona com o mundo e, em especial, com os outros. Ler a Bíblia todos os dias, recitar algumas passagens de memória, participar cotidianamente da igreja ou oferecer "a paz do Senhor" a outros membros não são práticas suficientes (embora minimamente necessárias) para se tornar um verdadeiro Cristão. É mister, antes de tudo, lutar contra suas paixões desmedidas e buscar ser santo e justo, cada dia um pouco mais. Mas isso não é uma tarefa tão fácil quanto pregam por aí. Na verdade, é um desafio para uma vida inteira. "Largar pai e mãe", "carregar a própria cruz", "oferecer a outra face" e "perdoar os vossos inimigos" não são exigências simples. É muito mais fácil, como tenho visto, esquecer dos deveres e exigir os direitos. 

Pontos nos "is"

Mas apesar de eu ter criticado as posições reducionista de Nietzsche sobre Platão, creio que mais perigoso é a interpretação dogmática no qual Platão foi compreendido ao decorrer da história. Quase se pode ouvir Platão dizer "amém" e rezar para o Deus pai todo poderoso - o que é um completo absurdo. Se tivermos o cuidado de separar bem "Platão" e o "Platonismo", e apontarmos a dinamite de Nietzsche apenas em direção a esse ultimo, seremos justo para com ambas as partes.

Uma guerra contra espelhos I

Nietzsche, portanto, não é um bom parâmetro para se entender a Grécia. O Filósofo carece de uma investigação mais empírica e científica dos principais acontecimentos da História. Como filólogo é um bom filósofo, mas como filósofo é um péssimo filólogo. Ele é tendencioso e parcial: busca em textos específicos, pontos específicos para criticar. Monta sua visão reducionista e elabora sua própria filosofia a partir de um recorte do mundo helênico que ele mesmo criou. Todavia, quem inverte o caminho, tomando a Grécia como parâmetro para entender Nietzsche, é capaz de identificar os seus argumentos mais falaciosos; as suas principais falhas. O melhor contraexemplo que Nietzsche está equivocado em relação a Platão é a leitura dos próprios textos de Platão.

Wilamowitz estava certo

Com a leitura das anotações de Nietzsche sobre os "diálogos platônicos", descobri dois dos seus principais problemas. Ambos, destaco, são oriundos dos tempos de juventude, quando o filósofo ainda era um estudante de Filologia: a) a leitura entusiasmada dos fragmentos de Demócrito e b) a dedicação, quase que exclusiva, em interpretar o mundo helênico a partir dos escritos biográficos de Diógenes Laércio - redigidos no segundo ou terceiro século depois de Cristo. O que deriva disso já sabemos: a completa adoção do pensamento "imanente" - para não dizer materialista - dos atomistas; e a leitura "reducionista" - para não dizer equivocada - de Platão que o coloca como sinônimo de Plotino e do Neoplatonismo. 

Decifra Sócrates e ele te devora

Sócrates é verdadeiramente uma esfinge. Quando vemos Xenofonte ou Platão discursarem sobre a apologia que ele teceu frente aos seus acusadores ou sua postura de valentia diante da morte, vemos duas teses sobre o motivo pelo qual ele havia agido de maneira destemida. Seus discípulo viam os atos, mas justificavam-nos conforme suas próprias expectativas. Sócrates em si é inatingível, ininteligível, inacessível. O que temos, na verdade, são "Sócrates plurais", moldados a partir das "formas de intuição a priori" de cada discípulo e amigo seu.