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Mostrando postagens de março, 2018

O tão antigo valor do meu desconhecimento

Leio porque me desconheço e se há outro motivo para ler, desconfio.

A natureza (i)moral do homem

Não se enganem: escolhemos por meio da moralidade somente aquilo no qual queremos ser (i)morais.

Por uma outra perspectiva

A verdade é que a incompletude não é de todo ruim: textos fragmentados, justamente por terem perdido seu caráter de objetividade, expandem sua possibilidade de interpretação quase ao infinito. Quando delimitamos bem o que queremos dizer, acabamos impossibilitando todas as outras possibilidades daquilo ser dito. Fico pensando, por exemplo, nas pessoas que lamentam a sorte dos escritos dos filósofos pré-socráticos, que chegaram até nós apenas por meio de fragmentos. Mas não foi justamente as suas incompletudes que tornaram possível as teses de outros grandes filósofos?

Nossas esposas

A cultura machista destacou os aspectos de Sócrates como se fossem de um herói e os de Xantipe como os de uma vilã. Exatamente como ainda vemos nossas esposas, mães dos nossos filhos.

Elogio à Xantipe

Os motivos que levaram Xantipe a ficar conhecida na história foram bem diferentes daqueles que transformaram seu marido, Sócrates, no marco da filosofia. Sendo mulher, dona de casa e mãe de dois filhos na Grécia, Xantipe dependia completamente do marido para sobreviver. Não tinha voz em praça pública, não podia lutar por direitos, não podia trabalhar para ganhar seu próprio sustento, era tão importante quanto um escravo que pertencia ao seu senhor como um objeto qualquer. Dia após dia, enquanto presenciava a fome dos seus filhos, esperava o marido retornar de suas longas conversas filosóficas. As vezes somavam semanas sem o marido por os pés em casa porque estava debatendo o valor da virtude com homens sem virtude alguma. Como ela detestava a filosofia que fazia do seu marido um escravo da reflexão! Não entendia como ele dialogava sobre tantos temas (morte, verdade, amor, coragem, virtude...) e deixava de refletir o mais essencial: se era um bom marido/um bom pai ou não. Era tão bem c...

A história e o seu processo de (des)ontologização da linguagem

A história da humanidade também pode ser entendida também pode ser entendida como a história da desvalorização conceitual da linguagem.

Regime mental

Ler, aprender, escrever e ensinar: uma dieta para a mente.

Esclarecimentos sobre Metafísica e Transcendência

Outra coisa que não parece ser tão clara para os estudiosos da filosofia é a relação entre a Metafísica e a Transcendência. Esses dois conceitos, conquanto tenham uma importante relação na história do ocidente, não são sinônimos e não devem ser tratados como se estivessem necessariamente conectados. Embora o termo "Metafísica", do grego, signifique "o que se encontra além da phýsis ", ele não deve ser compreendido como o estudo dos entes que transcendem (que estão fora) (d)a natureza, mas sim como o estudo dos entes que, apesar de estarem presentes ou não na natureza, não podem ser compreendidos a olho nu. Foi algo que Nietzsche percebeu muito bem quando afirmou que o grande feito realizado por Tales foi notar que, apesar da multiplicidade divergente de coisas que o cercavam, havia uma unidade que permanecia, subsistente, e que não se apresentava diretamente aos nossos sentidos. Todos os filósofos a partir dele seguiram o mesmo raciocínio: buscaram encontrar, diant...

Notas sobre o ato de conceituar

Após longos 2700 anos de história, a pergunta "O que é a filosofia?" ainda se apresenta como um imponente desafio para os seus estudiosos. Muitos, infelizmente, apenas propõem reformulações de teses já bem antigas e consolidadas, como se pudessem fazer esquecer (com o arranjo de novas palavras) os feitos daqueles que se tornaram imortais. Uma pequena parcela, entretanto, ainda se dispõe a tentar responder a essa pergunta de forma minimamente original: na década de noventa, por exemplo, dois dos mais importantes pensadores do século XX (Gilles Deleuze e Felix Guatarri) formularam uma resposta bastante interessante. Eles afirmaram que a filosofia, diferente dos outros instrumentos do conhecimento humano (como a arte, a religião e até a ciência), é única que pode "formar, inventar e fabricar conceitos". O ato de conceituar, nesse sentido, deve ser entendido como a tentativa de comprimir uma realidade em termos, isto é, formular com palavras aquilo que mais parece se a...

O Brasil é de Vernant

Em seu célebre livro "As Origens do Pensamento Grego" (1982), Jean-Pierre Vernant expõe duas visões acerca do surgimento da filosofia: de um lado, a posição de John Burnet de que o pensamento filósofico teve sua origem como um "milagre grego" e que teria se formulado como uma explicação do mundo oposta aquela proposta por mito, se contrapõe a tese de Frances Cornford no qual a construção do logos filósofico se deu de modo gradativo, a partir dos elementos basilares do pensamento mítico e sem nunca se desprender inteiramente dele. Conquanto a teoria de ambos tenha adquirido um número de adeptos similares em todo o mundo, no Brasil se tem a propensão a aceitar a ideia de que a filosofia seja definida como o exato oposto do mito, isso porque Vernant, que talvez seja o comentador de filosofia antiga mais estudado no país, acabou seguindo a concepção de Burnet em seus escritos. Basta notarmos que o próprio governo federal mandou publicar e distribuir exemplares de texto...

Rede de influências

Por muito tempo, alguns períodos de transição na história da filosofia (sobretudo aqueles marcados por grandes mudanças paradigmáticas), foram interpretados com ingenuidade e má-fé por parte dos pesquisadores. Alguns, na falta de uma leitura mais aprofundada dos acontecimentos históricos, acreditavam em verdadeiros "milagres", como se existisse um espaço intransponível entre o antes e o depois. Outros, não querendo atribuir a glória aos que também contribuíram para a superação de um determinado paradigma, focavam sua atenção apenas naqueles que reuniam e sistematizavam as novas descobertas. Encontramos exemplos desses dois tipos de posicionamentos tanto em relação ao "início" da filosofia, quanto na passagem do Medievo para a Modernidade. Até hoje se fala em um "milagre grego", como se não fosse possível encontrar elementos da filosofia já presente nos mitos e na cultura grega de um modo geral. Não é por acaso que Aristóteles, em uma passagem da Metafísic...

Lembranças e cimento

Certo dia, uma professora e pesquisadora do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal de Pernambuco (a qual eu estimo muito) me perguntou qual era a minha pretensão em seu grupo de pesquisa que tratava essencialmente de temas relacionados a Humanidades Digitais. Expliquei que quando eu era mais novo e meu pai me convidava a ajudá-lo com os ofícios de pedreiro, nunca pude contribuir da maneira que gostaria, por conta da minha notável inabilidade com serviços práticos. Todavia, havia algo que sempre me chamou a atenção em serviços como aquele: o modo como era preparado as massas de cimento. Eu sempre me impressionei com o fato de que a mistura de certos componentes poderia formar uma substância que viria a ser principal responsável pelo sustento de toda uma estrutura. E foi no que eu ajudei: jamais na linha de frente da construção, apenas lá trás, no preparo das massas. Respondi, portanto, que assim como naqueles tempos de infância, o que eu pretendia contribuir para...

Onde (sobre)vivo

Meu lar é feito de tinta; suas paredes são de papel. Embora pareça ser um limite concreto no tempo e no espaço, não há um dia em minha vida que eu não me sinta infinito, atemporal.

Aprendi com Platão a deixá-lo

Sempre defendi que a filosofia proposta por Platão era centrada no "caminho", nunca na "chegada". Isso significa que longe de ser aquele filósofo criador de sistemas, rigoroso e dogmático (que o neoplatonismo grego e cristão ensinou a história), ele é, na verdade, um pensador cético, que não tem problema em repensar suas teses, caso elas se apresentem aporéticas. E não poderia ser diferente: foi, sem dúvida, o maior discípulo de Sócrates e, como tal, sabia mais do que qualquer outro que "uma vida sem busca não é digna de ser vivida". O erro da maioria se encontra na leitura isolada de alguns dos seus diálogos (sobretudo aqueles escritos em sua maturidade), sem perceber o próprio movimento dialético presente em todo o corpus de sua obra, desde a juventude até a sua velhice. Platão não tinha medo de errar: sempre foi ele o maior crítico de si mesmo. Isso porque o homem, enquanto vida (junção da alma com o corpo) jamais será um ser completo e por mais que te...

Divórcios

Talvez eu tenha passado tempo demais procurando respostas sobre mim mesmo em uma filosofia existencialista de matriz subjetivista, monomaníaca e aporética. Além de adotar certo dualismo ontológico caduco, optava por estudar apenas um dos seus dois lados. Talvez esteja na hora de encarar a vida como um monista que enxergar a consciência-de-si e a consciência-do-mundo como coisas complementares, intercambiáveis. Talvez esteja na hora de abrir mão de certos paradigmas há muito enraizados e buscar novos caminhos que até então eu considerava intransitáveis. Não me importo de abrir mão de casamentos antigos se os novos me trazerem respostas. 

Pequeno tratado sobre a razão

Para mim, a filosofia deve ser uma poesia sem métrica.

A poesia precede a filosofia e a ciência

Em meus escritos, o rigor lógico da argumentação filosófica nunca irá substituir as brechas "relativistas" e "subjetivistas" encontradas em um texto poético-literário. Isso porque quando escrevo (e talvez apenas nesse momento) não procuro me comunicar com as grandes massas, mas com cada sujeito (leitor) em particular. Por isso quando me perguntam se meus textos são mais filosóficos ou científicos (inclusive os acadêmicos), respondo que são, antes de tudo, literários.

Sou um romântico das palavras

Não escrevo uma linha sem coração. As palavras em minha vida não são feitas de flatus vocis , mas de carne, osso e sangue. A página em branco, ausente de letras, já esconde as estórias que se encontram ali, presentes. Meu papel como escritor, assim como o de um grande escultor, é revelar a imagem que está escondida por detrás do mármore bruto. Sou um romântico das palavras e não nego; esse é o meu jeito peculiar de me encontrar com Deus.

O niilismo não vai durar

Apesar de compartilhar das incertezas e das descrenças vigentes em meu tempo, encaro o futuro com muito mais otimismo do que se espera de um aspirante pensador "pós-moderno". Sim, vivemos em tempos de crises, mas não fomos os únicos a sentir esse "mal-estar da civilização" e é necessário estarmos atento a isso. Penso nos tempos conflituosos da poesia e da filosofia nos séculos VII-V a.C.; do sincretismo cultural entre as tradições indo-europeia e semita nos séculos III a.C.-V d.C.; da crise do cristianismo diante do renascimento, da reforma protestante e da revolução científica; do contraste entre o cientificismo pregado pelos iluministas e as grandes guerras que assolaram a terra. O que vivemos hoje é apenas mais um hiato entre duas grandes épocas. Um sistema que não se adéqua mais, exigindo o nascimento de um outro. Tempos de transição são mesmo marcados por dúvidas, medos, anseios, conflitos, oposições, resistências e (por que não?) esperanças.

Um pé atrás por segurança

Como postura filosófica prefiro assumir certa desconfiança para com a própria filosofia (minha querida). Um ceticismo inaugural, pirrônico, não aquele acadêmico, oferecido por Espeusipo, Xenócrates e Sexto Empírico. Apresento a minha filosofia como UM caminho, UM instrumento, UM meio. Não o ÚNICO ou o MELHOR, mas também não o PIOR. Apenas mais um e um tão bom quanto qualquer outro. Acho que os tempos de grandes convicções já passaram.

Nem oito e nem oitenta

Shadow of the Colossus é a prova irrefutável que, conquanto gostemos de objetividade em nossas vidas, também adoramos perder tempo com coisas secundárias.