O Brasil é de Vernant

Em seu célebre livro "As Origens do Pensamento Grego" (1982), Jean-Pierre Vernant expõe duas visões acerca do surgimento da filosofia: de um lado, a posição de John Burnet de que o pensamento filósofico teve sua origem como um "milagre grego" e que teria se formulado como uma explicação do mundo oposta aquela proposta por mito, se contrapõe a tese de Frances Cornford no qual a construção do logos filósofico se deu de modo gradativo, a partir dos elementos basilares do pensamento mítico e sem nunca se desprender inteiramente dele. Conquanto a teoria de ambos tenha adquirido um número de adeptos similares em todo o mundo, no Brasil se tem a propensão a aceitar a ideia de que a filosofia seja definida como o exato oposto do mito, isso porque Vernant, que talvez seja o comentador de filosofia antiga mais estudado no país, acabou seguindo a concepção de Burnet em seus escritos. Basta notarmos que o próprio governo federal mandou publicar e distribuir exemplares de textos de Vernant para os alunos do ensino médio, formando assim uma verdade quase indubitável que é cobrada, por exemplo, no ENEM e em provas  de concursos espalhados por todo país. Não estou dizendo com isso que a posição de Vernant é menos correta do que a de Cornford (apesar de ser exatamente isso que eu acho), mas estou chamando a atenção para o fato de que em relação a disciplinas como filosofia (que sempre há mais de um ponto de vista sobre o mesmo assunto) é necessário estarmos sempre atentos a outras possibilidades, caso contrário cairemos na ingenuidade ou na desonestidade de outros. O silêncio também é uma forma de esquecimento.


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