Notas sobre o ato de conceituar

Após longos 2700 anos de história, a pergunta "O que é a filosofia?" ainda se apresenta como um imponente desafio para os seus estudiosos. Muitos, infelizmente, apenas propõem reformulações de teses já bem antigas e consolidadas, como se pudessem fazer esquecer (com o arranjo de novas palavras) os feitos daqueles que se tornaram imortais. Uma pequena parcela, entretanto, ainda se dispõe a tentar responder a essa pergunta de forma minimamente original: na década de noventa, por exemplo, dois dos mais importantes pensadores do século XX (Gilles Deleuze e Felix Guatarri) formularam uma resposta bastante interessante. Eles afirmaram que a filosofia, diferente dos outros instrumentos do conhecimento humano (como a arte, a religião e até a ciência), é única que pode "formar, inventar e fabricar conceitos". O ato de conceituar, nesse sentido, deve ser entendido como a tentativa de comprimir uma realidade em termos, isto é, formular com palavras aquilo que mais parece se aproxima da condição real de um fato qualquer. Imaginem três peixes em um lago tentando exprimir o que é isso tudo que os cerca. O primeiro afirma que eles parecem estar flutuando em um espaço vazio; o segundo diz que estão deslizando sobre um manto esticado de um ponto a outro; e o terceiro alega que parecem estar costurando uma substância aquosa. Os três, portanto, formularam conceitos (espaço, manto e substância aquosa) que tentam explicar a realidade ao seu redor, mas apenas um parece ter se aproximado do que, de fato, vivenciam. Deste modo, a tarefa do filósofo, desde os tempos mais primordiais, é construir os conceitos que melhor explicam a realidade ao nosso redor. Foi assim com Tales e é assim com os pensadores de hoje. Mas algo ainda merece ser destacado: é que o ato de "conceituar" não tem uma relação necessária com o ato de "nomear". O primeiro pressupõe um longo caminho reflexivo, enquanto que o segundo pode ser efetuado apenas como um simples fazer técnico. Eu posso nomear algo sem ponderar sobre aquilo que estou nomeando, mas jamais posso formular um conceito sem ter estudado previamente a história do pensamento. Apenas um povo na história da humanidade foi capaz de conectar o nomear com o conceituar: os gregos (ao menos boa parte deles), sempre que nomeavam algo estavam também conceituando-o. Havia uma preocupação de sempre encontrar a melhor palavra para descrever uma realidade. Até mesmo os nomes próprios, como demonstra Platão no Crátilo, eram pensados conforme a essência de cada indivíduo. Algo que se perdeu com o tempo, quando a linguagem se tornou puramente instrumental e o ato de conceituar deixou de ser uma realidade humana para se tornar unicamente filosófica.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Docta ignorantia

Pássaro sem bando

Um lobo à luz do dia