Esclarecimentos sobre Metafísica e Transcendência
Outra coisa que não parece ser tão clara para os estudiosos da filosofia é a relação entre a Metafísica e a Transcendência. Esses dois conceitos, conquanto tenham uma importante relação na história do ocidente, não são sinônimos e não devem ser tratados como se estivessem necessariamente conectados. Embora o termo "Metafísica", do grego, signifique "o que se encontra além da phýsis", ele não deve ser compreendido como o estudo dos entes que transcendem (que estão fora) (d)a natureza, mas sim como o estudo dos entes que, apesar de estarem presentes ou não na natureza, não podem ser compreendidos a olho nu. Foi algo que Nietzsche percebeu muito bem quando afirmou que o grande feito realizado por Tales foi notar que, apesar da multiplicidade divergente de coisas que o cercavam, havia uma unidade que permanecia, subsistente, e que não se apresentava diretamente aos nossos sentidos. Todos os filósofos a partir dele seguiram o mesmo raciocínio: buscaram encontrar, diante dos fenômenos da natureza, aquilo que permanecia, isto é, a arkhé (o elemento originário; o elemento condutor) de tudo. A filosofia, portanto, teve seu início como uma meta-física e é exatamente isso que a diferencia da ciência. Quando Aristóteles afirmou que há uma ciência primeira, que estuda o ser enquanto tal, que pretende realizar um estudo dos primeiros princípios, ele estava dando seguimento a tarefa iniciada por Tales e que nada tem a ver com uma explicação que transcendia a própria natureza. Transcender (não errem) é recorrer a algo fora da natureza e não podemos afirmar de maneira alguma que os primeiros filósofos fizeram isso – nem mesmo Platão que a tradição o legou como o fundador do transcendentalismo filósofico. A água de Tales pode ser entendida como a própria substância água (aquela que usamos para saciar nossa sede ou para nos banhar) que se encontra presente e que fundamenta a existência de todos os entes, independente de suas divergências. Do mesmo modo, o deus aristotélico não se encontra fora da phýsis (como o Deus cristão), ele está em presente acima dos inúmeros céus depois desse que vemos ao olhar para cima. A Metafísica, portanto, pressupõe um salto lógico, reflexivo, em direção aquilo que não se encontra diretamente ou objetivamente na própria natureza. Mas isso não significa que esse salto seja necessariamente transcendental, isto é, para fora da própria natureza. Os gregos de um modo geral, Espinosa e até o próprio Nietzsche (que ele queira ou não) são só alguns exemplos de metafísicas de cunho imanente e não há nada de contraditório nisso. Metafísica e Transcendência podem até ter andado juntas por muito tempo na história do ocidente (sobretudo no período cristão), mas elas não estão necessariamente conectadas.
Comentários
Postar um comentário