Schopenhauer estava certo: envelhecer, de fato, é uma eutanásia. Aos trinta, em meio a um mundo que se desprende da virada do século passado, já não me reconheço nos rostos das crianças, nas músicas do rádio, nas dancinhas do Instagram e do TikTok. Tudo em mim resiste aos golpes das mudanças e eu me apego a lembranças já tão translúcidas, quase transparentes, manchas de um espelho que estão para se apagar. Do meu passado, apenas um ou outro ainda se lembra, pois conviveu comigo. Estou ficando velho e a sensação é de que estou deixando de existir pouco a pouco, apesar do coração ainda pulsar firmemente, resistindo as batidas do relógio. Sou como o rabisco feito a lápis em um chão de concreto: quem ainda pode me enxergar? Quem ainda pode ser capaz de acompanhar meu contorno com os dedos? Quem ainda está aí do outro lado que é capaz de lembrar qual é o meu significado? Qual é a minha importância? Envelhecer, de fato, é uma eutanásia: não é que eu esteja desejando a morte, mas é que, ...