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Mostrando postagens de julho, 2018

'Eu só poderia crer em um Deus que soubesse dançar'

A crítica de Nietzsche ao socratismo, isto é, a tendência socrático-platônica de superestimar a razão, revelou – dentre outras coisas – a desvalorização do corpo pela cultura ocidental. Desde esses filósofos, o corpo passou a ser visto como a prisão da alma, a morada do erro e a fonte do engano; aquilo que impede de alcançarmos o conhecimento pleno, que nos afasta de toda e qualquer possibilidade de sermos sábios, deuses. No Medievo e na Modernidade, embora os conceitos sejam outros, a situação persiste: o corpo é a fonte de todo o pecado; aquilo que nos afasta de Deus, do Bem, do Céu e da vida eterna. O corpo é um mero instrumento, mecânico; aquilo que não sou de verdade, que não torna a minha existência possível. Com apenas algumas exceções, essa desvalorização do corpo irá se tornar o ponto de partida para qualquer investigação filosófica, religiosa e, até mesmo, científica realizada no mundo ocidental. Os desdobramentos que colhemos diante dessa perspectiva...

Enxerto

Nossas lembranças estão todas rasuradas. O tempo é o maior agente corrosivo. Não existe continuidade entre passado e presente. Somente a imaginação torna possível a memória.

a posteriori

Ensinem aos nossos jovens que é possível mudar de opinião de vez em quando; que ninguém nasce pronto e acabado; que escolher uma profissão demanda tempo e, na maior parte das vezes, diversas tentativas fracassadas; que errar no amor é humano; que ser adulto não te garante autonomia; e que planejar o futuro é bem diferente de romantizá-lo ou idealizá-lo.

Moleque sonhador

Gosto de quando me intitulam "otimista" ou "sonhador". A maior parte das pessoas passa a vida inteira para descobrir que são capazes de sonhar.

Epoché, "eu quero uma pra viver"

O perigo de toda ideologia é transformar um ponto de vista em religião. Ideias existem para serem contestadas, não para serem adoradas. 

Falsos ídolos

Nietzsche talvez foi o maior crítico da filosofia Socrático-Platônica. A ética socrática, centrada em ideais apolíneos, e a suposta transcendência que Platão funda com suas hipóteses inteligíveis, afirma o alemão, não passam de um aprisionamento da vida, das funções basilares que tornam possível a nossa própria existência como humanos, demasiado humanos. Todavia, ao analisar mais de perto a metodologia empregada por Nietzsche não podemos deixar de notar certas semelhanças com aqueles que mais criticou. Em sua obra "Crepúsculo dos Ídolos" ou "Como filosofar com o martelo", o filósofo insiste que é preciso auscultar os ídolos que seguimos para descobrirmos se são ocos, vazios em seu interior. É nesse sentido que devemos usar o martelo: com uma batidinha na porcelana e os ouvidos próximos demais podemos facilmente descobrir a consistência das esculturas que veneramos, que seguimos, que defendemos com todas as nossas forças. E no caso delas serem vazias, este mesmo mar...

Sobre o ato de ser livre e o mundo fora da caverna

Sair da caverna não é o suficiente: é preciso estar sempre atento para que o sentimento de liberdade não nos aprisione em uma outra. Imaginem a seguinte figura: um sujeito, crítico de seu contexto sócio-cultural, pertencente a grupos de destaque na sociedade, que persegue continuamente o mesmo eixo de discussão, criticando os oprimidos e dando vez aos silenciados. Esse impulso que manifesta sua coragem, seu brio, que o libertou há anos das prisões dos seus antigos opressores, agora o tornou cego demais para encarar as outras realidades, plurais, os meios-termos, as partes cinzentas, o que se escapa entre o seu antes e o seu agora. Esse sujeito, por se achar autônomo demais, livre da caverna, não percebe o quanto essa sua "liberdade" também o aprisiona do lado de fora; o quanto o seu discurso é ingênuo, de má-fé, igualmente opressor. Ao ter contemplado "o sol da verdade", esse sujeito segue julgando que toda noite é falsa, que a escuridão também não faz parte do dia...

Dedicatória vitalícia

Para que fique registrado: todos os meus escritos foram e sempre serão dedicados a Jhoicykelly, meu único amor.