'Eu só poderia crer em um Deus que soubesse dançar'
A crítica de Nietzsche ao socratismo, isto é, a tendência socrático-platônica de superestimar a razão, revelou – dentre outras coisas – a desvalorização do corpo pela cultura ocidental. Desde esses filósofos, o corpo passou a ser visto como a prisão da alma, a morada do erro e a fonte do engano; aquilo que impede de alcançarmos o conhecimento pleno, que nos afasta de toda e qualquer possibilidade de sermos sábios, deuses. No Medievo e na Modernidade, embora os conceitos sejam outros, a situação persiste: o corpo é a fonte de todo o pecado; aquilo que nos afasta de Deus, do Bem, do Céu e da vida eterna. O corpo é um mero instrumento, mecânico; aquilo que não sou de verdade, que não torna a minha existência possível. Com apenas algumas exceções, essa desvalorização do corpo irá se tornar o ponto de partida para qualquer investigação filosófica, religiosa e, até mesmo, científica realizada no mundo ocidental. Os desdobramentos que colhemos diante dessa perspectiva...