Sobre o ato de ser livre e o mundo fora da caverna
Sair da caverna não é o suficiente: é preciso estar sempre atento para que o sentimento de liberdade não nos aprisione em uma outra. Imaginem a seguinte figura: um sujeito, crítico de seu contexto sócio-cultural, pertencente a grupos de destaque na sociedade, que persegue continuamente o mesmo eixo de discussão, criticando os oprimidos e dando vez aos silenciados. Esse impulso que manifesta sua coragem, seu brio, que o libertou há anos das prisões dos seus antigos opressores, agora o tornou cego demais para encarar as outras realidades, plurais, os meios-termos, as partes cinzentas, o que se escapa entre o seu antes e o seu agora. Esse sujeito, por se achar autônomo demais, livre da caverna, não percebe o quanto essa sua "liberdade" também o aprisiona do lado de fora; o quanto o seu discurso é ingênuo, de má-fé, igualmente opressor. Ao ter contemplado "o sol da verdade", esse sujeito segue julgando que toda noite é falsa, que a escuridão também não faz parte do dia. Só volta para caverna para julgar, para apontar os erros, para desqualificar a vida lá de dentro.
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