Falsos ídolos

Nietzsche talvez foi o maior crítico da filosofia Socrático-Platônica. A ética socrática, centrada em ideais apolíneos, e a suposta transcendência que Platão funda com suas hipóteses inteligíveis, afirma o alemão, não passam de um aprisionamento da vida, das funções basilares que tornam possível a nossa própria existência como humanos, demasiado humanos. Todavia, ao analisar mais de perto a metodologia empregada por Nietzsche não podemos deixar de notar certas semelhanças com aqueles que mais criticou. Em sua obra "Crepúsculo dos Ídolos" ou "Como filosofar com o martelo", o filósofo insiste que é preciso auscultar os ídolos que seguimos para descobrirmos se são ocos, vazios em seu interior. É nesse sentido que devemos usar o martelo: com uma batidinha na porcelana e os ouvidos próximos demais podemos facilmente descobrir a consistência das esculturas que veneramos, que seguimos, que defendemos com todas as nossas forças. E no caso delas serem vazias, este mesmo martelo pode ser usado para rachá-las, para demonstrar suas inconsistências, para destruí-las. Ora, Platão, no "Teeteto",  ao apresentar a metodologia filosófica empregada por Sócrates em seus diálogos, torna patente um ponto importante: o diálogo socrático servia para testar a alma dos jovens; para descobrir se estavam grávidas da verdade. Se sim, o filósofo grego seria como uma "parteira", ajudando os jovens a colocarem para fora aquilo do qual estavam grávidos. Se, caso contrário, as almas estivessem grávidas com a falsidade, o filósofo provocaria abortos, eliminando aquilo que só traria consequências negativas aos jovens. Tanto Nietzsche quanto Sócrates possuíam aquilo que gosto de chamar de "síndrome do messias", muito própria de todo filósofo. Tanto um quanto o outro se apresentavam como iconoclastas, especialistas em desmembrar o que julgavam ser os "falsos ídolos" ou "falsas opiniões". O que não notavam, entrementes, era que suas pretensões de "verdade" o colocam no interior do mesmo grupo de pessoas que criticavam. 

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