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Mostrando postagens de abril, 2018

Sofistas modernos

Há alguns anos, quando eu redigia o meu TCC em Licenciatura em Filosofia, minha preocupação se encontrava na Metodologia do Ensino de Filosofia para alunos do Ensino Médio. Lembro de argumentar no TCC sobre os problemas das aulas de Filosofia serem centradas na mera troca de opiniões e de como isso poderia ocorrer o efeito da Filosofia, isto é, promover no aluno a aversão a discussão filosófica (misologia). De fato, sempre que presencio a aula de Filosofia ministrada por pessoas não formadas na disciplina (ou que são formadas, mas que fazem da sala de aula um ringue de opiniões), percebo que aquela minha preocupação de antes ainda se encontra presente. Já estou cansado de ter alunos em PRÉ-ENEM que saíram do Ensino Médio detestando a disciplina pelo simples fato do professor não ter ministrado conteúdo algum e apenas ter colocado-os para discutir suas crenças. As vezes, o que é ainda pior, alguns me dizem que esses "sofistas" promoviam o bulling sempre que a crença ou a opin...

Senhor, se possível, afasta de mim esse cálice

Só não espero morrer na frente de um computador, escrevendo. Ainda mais se for um texto acadêmico, valha-me Deus! Não me entendam mal, amo escrever. Só considero a morte um evento importante demais para se viver enquanto estou realizando uma ação que passei minha vida inteira fazendo.

Silêncio

Quando as palavras são insuficientes para transmitir tudo aquilo que sentimos, o silêncio se torna a melhor forma de expressão.

(L(ei))a

Leia de tudo. Se não pelo seu caráter normativo, pelo seu aspecto formativo.

Entre bares e igrejas

O país se encontra dividido entre bares e igrejas. Nas avenidas do meu Brasil, um corpo que ousa evitar qualquer um dos dois lados da calçada acaba morrendo atropelado.

Entremeio

Conheci dois grandes homens que eram antípodas. O primeiro era um consumidor inveterado de literatura, mas desprezava a leitura de textos acadêmicos. O segundo, ao contrário, por valorizar demais os artigos, as dissertações e as teses, acabava por deixar de lado os escritos literários. Com esses dois grandes homens aprendi que poderia ser um terceiro: entremeio.

Pessoas não são coisas

Você costuma achar que certas pessoas são entediantes? Acredite, isso é mais um problema seu do que do outro. O filósofo alemão Martin Heidegger, no século passado, elaborou um importante tratado sobre o tédio, apontando como uma de suas principais causas o fato das coisas, de vez em quando, não se apresentarem como esperamos que elas se apresentem. Isso porque, diferente dos seres humanos, as coisas possuem uma essência pré-definida que as determinam ser de um modo e não de outro. Pensemos em um apontador de lápis: esse objeto só pode ser o que ele é se, de fato, conseguir realizar sua tarefa. Quem fabrica um "apontador de lápis" o faz por ter em mente a esse desse objeto, isto é, aquilo que faz com que ele seja o que ele é e não outro. Nos entendiamos, portanto, quando algo não realiza aquilo que ele foi feito para realizar ou, em outras palavras, não age de acordo com sua essência. O exemplo que Heidegger oferece é o de uma estação de trem. Ficamos entediamos quando temos...

O que há por trás da empatia?

Que critérios de seleção há por trás da empatia? O que há em mim e o que há em você que nossa singularidade seja tolerada, querida ou indispensável um pelo outro? Como montamos essa articulação em fração de segundos (ou, talvez, até de milésimos)? A resposta só pode ser instintiva, emocional, corporal. A razão, por ela mesma, sempre parece enfraquecer, depreciar, hostilizar, assassinar o outro. Isso porque todo ato de conceituar (que é imanente ao próprio pensamento) de-limita os seus objetos de ação. Com a razão toda relação se torna sempre incompleta. O outro está fadado a ser palco de observação; a distância, em sua (in)significante (in)dividualidade. Que critérios de seleção há por trás da empatia? Não há critérios. Só instinto, emoção e corpo.

Eu, professor de Filosofia

Há algo na Filosofia que faz dela um instrumento significativo de mudanças na vida dos adolescentes que a estudam no Ensino Médio. Não existe tempo mais conturbado do que esse meio termo entre a criança e o adulto: quantas coisas diferentes não ocorrem em nossas vidas em tão pouco tempo? A consciência de que o mundo é bem maior do que nosso lar ou a descoberta de zonas erógenas em nosso corpo causa um sem número de momentos difíceis que enfrentamos das maneiras mais inusitadas. A morte que cedo ou tarde chega e que agora passa a nos fazer sentir não mais pertencentes a esse mundo de ilusões que tanto adorávamos, que tanto nos fazia feliz, que acreditávamos ser infinito, eterno, imutável. O outro que nos olha, nos atormenta, nos julga, nos oprime, nos machuca e que exige nosso posicionamento, nossa opinião, nosso fortalecimento, nossa "adultificação" prematura. E em meio a tudo isso, claro, a Filosofia (mais do que qualquer outra disciplina que estudamos na escola) parece ent...

Convicções políticas

Não quero que meu silêncio deixe passar despercebido as minhas convicções políticas. Sou negro, pobre, filho de pobres que nunca foram a universidade e desconhecem o que significa o termo "tcc". Sou professor de Filosofia, matéria esquecida e continuamente excluída no Ensino Médio (não por acaso). Moro em uma periferia, pego ônibus todo dia, tenho risco de ser assaltado ou morrer em hospital público. Por conta disso eu não poderia ser outra coisa se não de "esquerda". Não poderia ser outra coisa se não "Lula".

A genialidade é filha da experiência, não do acaso

Nunca gostei de rotular ninguém como "gênio". Isso parece ser mais uma desculpa para tirar o outro da competição, para afirmar que ele não faz parte do mesmo universo que eu, e que por mais que eu tente, serei incapaz de chegar aonde ele chegou. Sim, as pessoas possuem aptidões diferentes. Mas elas só chegam lá com bastante esforço (exceto alguns pequenos casos, mas não devemos trabalhar com exceções), não existe outra receita para alcançar nossos objetivos. O "gênio", na maior parte das vezes, passou horas estudando, treinando um instrumento, repetindo sempre os mesmos golpes, se dedicando cada dia um pouco mais, enquanto você ficava aqui durante horas lendo bobagens que eu ou qualquer outra pessoa escrevia no Facebook.

A importância da analogia para o professor de Filosofia no Ensino Médio

A analogia é um recurso linguístico imprescindível para aqueles que querem explicar conceitos filosóficos. Ainda mais se o seu público são alunos do Ensino Médio que quase não tiveram contato algum com a filosofia durante toda a sua vida. Como ninguém é uma lousa em branco e todos os dias a vida encontra um jeito novo de nos oferecer experiências ainda inéditas, cabe ao professor retomar tais vivências e relacioná-las com os conceitos filosóficos. Recentemente, por exemplo, para explicar o que Sócrates e Platão entendiam por DIALOGAR, recorri ao ato de brincar em uma gangorra. Para que haja diversão é necessário que as duas crianças estejam dispostas a ceder o momento da subida, criando um acordo em prol de um objetivo em comum. Nesse sentido, as crianças só podem brincar de gangorra com seus amigos ou aqueles que estejam, de fato, dispostos a manter o acordo até o fim da brincadeira. O mesmo acontece com o diálogo. DIALOGAR nada tem a ver com DISCUTIR. O diálogo pressupõe sempre duas...

Síndrome do messias

Alguns professores de universidades (para não dizer a grande maioria) possuem aquilo que gosto de chamar de "síndrome do messias". Eles acreditam que a disciplina que ministram é a mais importante de todas, esquecendo de demonstrar qual é a sua verdadeira função (ou simplesmente sua ligação) dentro do corpus  de disciplinas que compõe o curso. Os alunos acabam se formando sem serem capazes de relacionar os assuntos mais triviais, mas tornam-se quase  experts em identificar discursos de poder.

A maior descoberta de Marcílio Bezerra Cruz

Dado as trágicas, porém cômicas reviravoltas da vida, só posso chegar a uma simples conclusão: Deus é comediante. Para mim não há verdade mais indubitável.

Dois pesos, duas medidas

A ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) nos obriga a apontar de onde tiramos as ideias que colocamos em nossos textos. Isso deve ser feito mesmo se as palavras não forem postas ipsis litteris , isto é, ao pé da letra (isso se chama "citação indireta"). Caso não façamos isso, podemos ser acusados de PLÁGIO e destruiremos todo nosso currículo acadêmico e, por conseguinte, nossa vida profissional. Todavia, se algum erudito famoso faz o mesmo, acusam-no de INTERTEXTUALIDADE, um conceito criado exclusivamente para salvá-lo da democratização da lei. É o famoso caso de dois pesos, duas medidas.