O país se encontra dividido entre bares e igrejas. Nas avenidas do meu Brasil, um corpo que ousa evitar qualquer um dos dois lados da calçada acaba morrendo atropelado.
Eu não preciso de muito para ser feliz: um livro de poesias aberto sobre a cama; uma noite de natal, na qual as luzes projetam monstros e querubins; um mocca quentinho, com o ganache deslizando pela caneca; uma conversa com quem sente as dores do mundo; e, acima de tudo, a certeza de um ano melhor. ... Às vezes, tenho a sensação de que os sonhos grandiosos são mais fáceis de alcançar; que a simplicidade, justamente por sua facilidade, é inalcançável. Seria tudo mais simples se o ouro fosse mais importante do que a verdade. Mas não: eu sou uma mariposa que só se sente atraída pelo brilho das estrelas. ... O meu problema é não ter nascido quebrado como todo mundo. Os domingos seriam mais fáceis de suportar com alguns neurônios a menos. As árvores não atrairiam tanto a minha atenção, e as palavras não pesariam uma tonelada. Voar perde toda a graça quando se é um pássaro sem bando.
Tenho por certo que jamais alcançarei o conhecimento pleno das coisas; e, ainda que me contente com o pouco que me é dado saber, não se extingue em mim a sede de compreender. Essa docta ignorantia é o fardo e a graça de minha condição: sei que ignoro, e por isso mesmo busco sem cessar. Filho de Poros e de Penia, carrego em minha essência a contradição que me ergue e me abate, que me lança ao infinito e me prende à terra. Se muitos veriam nisso um motivo de desespero, encontro, ao contrário, uma secreta alegria: pois é na insuficiência que descubro o meu ser, e na fome insaciável de saber que reconheço a dignidade da minha existência.
Tem dias que eu desejo que o céu simplesmente desabe. Que o firmamento se fragmente em mil pedaços. Nem sempre é possível estar alegre e esperançoso. O problema é todo esse azul que insiste em dizer que vai ficar tudo bem; que colore tudo, mesmo que eu me sinta tão cinzento. ... A vida está se comprimido ao meu redor e eu já sinto o gosto de frustração deslizar pela minha garganta. Mesmo sendo tão familiar, ainda é amargo e áspero. Dói, mas não me engasgo. Eu só queria poder vomitar, pôr tudo pra fora, e continuar a olhar o céu lá em cima, contente por ele ser democraticamente igual para todo mundo. ... Hoje eu odiaria ser onipresente, mas ficaria satisfeito se criasse raízes. Posso suportar tua ausência apenas na distância, mas nunca na presença. Dependendo de quem se perde, a divindade é uma maldição. Imperfeito, eu envelheço, morro e te esqueço; perfeito, por outro lado, terei uma eternidade para lamentar tua partida. ... Eu achava que já tinha vivido o suficiente para deixar de sof...
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