Pessoas não são coisas

Você costuma achar que certas pessoas são entediantes? Acredite, isso é mais um problema seu do que do outro. O filósofo alemão Martin Heidegger, no século passado, elaborou um importante tratado sobre o tédio, apontando como uma de suas principais causas o fato das coisas, de vez em quando, não se apresentarem como esperamos que elas se apresentem. Isso porque, diferente dos seres humanos, as coisas possuem uma essência pré-definida que as determinam ser de um modo e não de outro. Pensemos em um apontador de lápis: esse objeto só pode ser o que ele é se, de fato, conseguir realizar sua tarefa. Quem fabrica um "apontador de lápis" o faz por ter em mente a esse desse objeto, isto é, aquilo que faz com que ele seja o que ele é e não outro. Nos entendiamos, portanto, quando algo não realiza aquilo que ele foi feito para realizar ou, em outras palavras, não age de acordo com sua essência. O exemplo que Heidegger oferece é o de uma estação de trem. Ficamos entediamos quando temos que esperar um trem chegar, algo que ele deveria fazer imediatamente - como pre-escreve sua essência. O problema, portanto, de se entediar com outras pessoas é que tomamos como pressuposto que sabemos exatamente como elas devem se comportar. Como se as pessoas fossem coisas, isto é, possuíssem uma essência pre-determinada. Ora, as pessoas não existem em função de, mas a função que elas executam em seus trajetos de vida é oriunda de suas próprias escolhas. Em um jargão existencialista: em relação as pessoas, a "existência precede a essência". Desse modo, quando ficamos entediados com alguém, a culpa é inteiramente nossa (e não do outro), por acharmos que essa pessoa deva se comportar exatamente como queremos ou esperamos que ela se comporte.  

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