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Mostrando postagens de novembro, 2025

Pássaro sem bando

Eu não preciso de muito para ser feliz: um livro de poesias aberto sobre a cama; uma noite de natal, na qual as luzes projetam monstros e querubins; um mocca quentinho, com o ganache deslizando pela caneca; uma conversa com quem sente as dores do mundo; e, acima de tudo, a certeza de um ano melhor. ... Às vezes, tenho a sensação de que os sonhos grandiosos são mais fáceis de alcançar; que a simplicidade, justamente por sua facilidade, é inalcançável. Seria tudo mais simples se o ouro fosse mais importante do que a verdade. Mas não: eu sou uma mariposa que só se sente atraída pelo brilho das estrelas. ... O meu problema é não ter nascido quebrado como todo mundo. Os domingos seriam mais fáceis de suportar com alguns neurônios a menos. As árvores não atrairiam tanto a minha atenção, e as palavras não pesariam uma tonelada. Voar perde toda a graça quando se é um pássaro sem bando.

Muro de arrimo

Eu vejo a cidade se transformar e apagar minhas melhores lembranças. Os lugares que antes guardavam marcas do meu passado estão sendo soterrados por novas vivências — e um pouco de mim vai morrendo a cada dia. ... Onde antes havia um beijo, agora há apenas um banco de concreto. O que antes era um amontoado de sorrisos, agora é um muro de arrimo. Cada mudança exige um pedaço da minha alma, como se o futuro da humanidade dependesse do fato de eu deixar de existir. ... Aprendi que só é possível habitar o futuro esquecendo o passado; que o amanhã nasce das cinzas do hoje. E, como não consigo esquecer, vou sendo apagado a cada verso. A saudade não é suficiente para me manter vivo — paradoxalmente, é tudo que tenho para me manter são.