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Café ao meio dia

Houve um tempo em que um café ao meio-dia, antes de uma aula sobre Foucault, era sinônimo de felicidade. Você ao meu lado, rindo das minhas idiossincrasias, entusiasmada com qualquer novo conceito que eu pudesse te ensinar. Seu olhar era de reconhecimento, como se, apesar das nossas diferenças, fossemos um só, partilhando um turbilhão de sentimentos e sonhos. ... O tempo, é claro, passou. Antes da distância entre nossos corpos, a admiração se tornou desapontamento. Eu fui me transformando em cinzas, deixando um rastro de cor a cada passo. Tu, ao contrário, tornaste uma aquarela, viva e colorida. Minhas peculiaridades se tornaram enfadonhas; já tuas mesmices passaram a ser milagres. Viraste meu único desejo e eu me tornei teu maior desencanto. ... Fico imaginado o que seria se eu tivesse me tornado um só contigo. Quantos cafés iríamos ter que tomar até concluirmos que nos amamos? As minhas aulas já não são mais tão incríveis sem teu olhar para me contemplar. Talvez o tempo seja capaz de...

Estrangeiro em mim mesmo

Em busca dos meus sonhos, desaprendi a sonhar. Acordei em uma segunda qualquer, mais no passado do que futuro, e então percebi que já não conseguia mais envelhecer; que estava completamente paralisado diante do fato de ainda ser o mesmo. ... Em busca do amor, desaprendi a amar. Diante da paixão que tanto idealizei, senti-me vazio. Sem borboletas, calafrios ou queimores. Apenas o silêncio das palavras e uma troca de olhares angustiada, de quem deseja mais fugir do que permanecer. ... Em busca de Deus, desaprendi a ter fé. Procurei respostas em templos, livros e promessas, mas encontrei apenas o eco das minhas próprias dúvidas. E, pela primeira vez, compreendi que a ausência de milagres não era o que mais me assustava - era o fato de já não saber como rezar. ... Em busca de ser, desaprendi a viver. Na ânsia de contemplar a eternidade, esqueci a minha temporalidade. Flutuei tempo o suficiente para esquecer de como se pisa ao chão. Agora estou perdido no espaço: estrangeiro em mim mesmo; i...

Pássaro sem bando

Eu não preciso de muito para ser feliz: um livro de poesias aberto sobre a cama; uma noite de natal, na qual as luzes projetam monstros e querubins; um mocca quentinho, com o ganache deslizando pela caneca; uma conversa com quem sente as dores do mundo; e, acima de tudo, a certeza de um ano melhor. ... Às vezes, tenho a sensação de que os sonhos grandiosos são mais fáceis de alcançar; que a simplicidade, justamente por sua facilidade, é inalcançável. Seria tudo mais simples se o ouro fosse mais importante do que a verdade. Mas não: eu sou uma mariposa que só se sente atraída pelo brilho das estrelas. ... O meu problema é não ter nascido quebrado como todo mundo. Os domingos seriam mais fáceis de suportar com alguns neurônios a menos. As árvores não atrairiam tanto a minha atenção, e as palavras não pesariam uma tonelada. Voar perde toda a graça quando se é um pássaro sem bando.

Muro de arrimo

Eu vejo a cidade se transformar e apagar minhas melhores lembranças. Os lugares que antes guardavam marcas do meu passado estão sendo soterrados por novas vivências — e um pouco de mim vai morrendo a cada dia. ... Onde antes havia um beijo, agora há apenas um banco de concreto. O que antes era um amontoado de sorrisos, agora é um muro de arrimo. Cada mudança exige um pedaço da minha alma, como se o futuro da humanidade dependesse do fato de eu deixar de existir. ... Aprendi que só é possível habitar o futuro esquecendo o passado; que o amanhã nasce das cinzas do hoje. E, como não consigo esquecer, vou sendo apagado a cada verso. A saudade não é suficiente para me manter vivo — paradoxalmente, é tudo que tenho para me manter são.

Sou um historiador das ideias

Nunca busquei nos livros um ensinamento que pudesse guiar meus passos. Não reconheço nos filósofos, mestres ou guias espirituais, e não faço da Academia um lugar de devoção ao qual eu possa me entregar para alcançar um sentido último para minha existência. O que busco, na verdade, é entender a mim mesmo com base naquilo em que discordo ou concordo das ideias oferecidas por outrem. Como estou em constante transformação, tenho consciência de que essa busca não tem fim: é um eterno porvir. Dessa consciência nasce também a recusa em oferecer verdades. Prefiro ser lembrado como um historiador das ideias - alguém que reconhece rastros e testemunhos - em vez de um ideólogo ou construtor de sistemas. Pois a filosofia que me resta não é a que edifica, mas a que interroga.

Entre memórias e atos

O peso das consequências faz crer que cada ato sela em nós uma essência definitiva. O passado se acumula, cresce, e nos convence de que a liberdade se perde sob o peso daquilo que já fomos. Mas não somos ruínas do que passou: cada escolha, ainda que irreversível, abre brechas para novas possibilidades de ser. A existência não precede a essência — ela a reinventa, incessantemente, no entrechoque das memórias com os atos.

Se Deus não existisse seria necessário inventá-lo

Minha religiosidade é pragmática: não a sustento por provas, mas por seu valor existencial, psicológico e social. A razão, diante da finitude e das adversidades, mostra-se insuficiente para amparar o sujeito em suas crises, traumas e solidões. Concordo com William James quando afirma que ainda sem provas da existência de Deus, a crença consola e isso, por si, já basta. Por outro lado, para que fique claro, também defendo que a religiosidade não deve ser ter licença para tudo: seus limites precisam ser traçados. A crença não é refúgio para todo infortúnio, mas amparo apenas onde a razão é impotente; só deve ser exercida diante do que não se compreende, diante do que não se explica.