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Mostrando postagens de abril, 2020

Uma guerra contra espelhos II

Nietzsche chama os diálogos da juventude de Platão - que são notadamente aporéticos, céticos e antidogmáticos - de "diálogos insignificantes" e "diálogos estéreis". O filósofo alemão deixa de lado esses textos fundamentais que ressaltam o caráter zetético dos corpus platonicum - herdados a partir do contato com Sócrates e da aporia implícita no fato de saber apenas aquilo que não se sabe. Nietzsche bate em espelhos. O Socratismo - e, por conseguinte, o Platonismo - é a sua outra face; é seu próprio inconsciente. Ele cria imagens de inimigos em possíveis amigos, daí enfrenta quimeras que só existem em seu próprio pensamento.

Entrai pela porta estreita

O processo de conversão ao Cristianismo exige muito mais do que uma simples afirmação (eu aceito!) diante da superioridade e da grandiosidade de Jesus, mas uma profunda transformação na maneira como o individuo se relaciona com o mundo e, em especial, com os outros. Ler a Bíblia todos os dias, recitar algumas passagens de memória, participar cotidianamente da igreja ou oferecer "a paz do Senhor" a outros membros não são práticas suficientes (embora minimamente necessárias) para se tornar um verdadeiro Cristão. É mister, antes de tudo, lutar contra suas paixões desmedidas e buscar ser santo e justo, cada dia um pouco mais. Mas isso não é uma tarefa tão fácil quanto pregam por aí. Na verdade, é um desafio para uma vida inteira. "Largar pai e mãe", "carregar a própria cruz", "oferecer a outra face" e "perdoar os vossos inimigos" não são exigências simples. É muito mais fácil, como tenho visto, esquecer dos deveres e exigir os direitos. 

Pontos nos "is"

Mas apesar de eu ter criticado as posições reducionista de Nietzsche sobre Platão, creio que mais perigoso é a interpretação dogmática no qual Platão foi compreendido ao decorrer da história. Quase se pode ouvir Platão dizer "amém" e rezar para o Deus pai todo poderoso - o que é um completo absurdo. Se tivermos o cuidado de separar bem "Platão" e o "Platonismo", e apontarmos a dinamite de Nietzsche apenas em direção a esse ultimo, seremos justo para com ambas as partes.

Uma guerra contra espelhos I

Nietzsche, portanto, não é um bom parâmetro para se entender a Grécia. O Filósofo carece de uma investigação mais empírica e científica dos principais acontecimentos da História. Como filólogo é um bom filósofo, mas como filósofo é um péssimo filólogo. Ele é tendencioso e parcial: busca em textos específicos, pontos específicos para criticar. Monta sua visão reducionista e elabora sua própria filosofia a partir de um recorte do mundo helênico que ele mesmo criou. Todavia, quem inverte o caminho, tomando a Grécia como parâmetro para entender Nietzsche, é capaz de identificar os seus argumentos mais falaciosos; as suas principais falhas. O melhor contraexemplo que Nietzsche está equivocado em relação a Platão é a leitura dos próprios textos de Platão.

Wilamowitz estava certo

Com a leitura das anotações de Nietzsche sobre os "diálogos platônicos", descobri dois dos seus principais problemas. Ambos, destaco, são oriundos dos tempos de juventude, quando o filósofo ainda era um estudante de Filologia: a) a leitura entusiasmada dos fragmentos de Demócrito e b) a dedicação, quase que exclusiva, em interpretar o mundo helênico a partir dos escritos biográficos de Diógenes Laércio - redigidos no segundo ou terceiro século depois de Cristo. O que deriva disso já sabemos: a completa adoção do pensamento "imanente" - para não dizer materialista - dos atomistas; e a leitura "reducionista" - para não dizer equivocada - de Platão que o coloca como sinônimo de Plotino e do Neoplatonismo. 

Decifra Sócrates e ele te devora

Sócrates é verdadeiramente uma esfinge. Quando vemos Xenofonte ou Platão discursarem sobre a apologia que ele teceu frente aos seus acusadores ou sua postura de valentia diante da morte, vemos duas teses sobre o motivo pelo qual ele havia agido de maneira destemida. Seus discípulo viam os atos, mas justificavam-nos conforme suas próprias expectativas. Sócrates em si é inatingível, ininteligível, inacessível. O que temos, na verdade, são "Sócrates plurais", moldados a partir das "formas de intuição a priori" de cada discípulo e amigo seu.