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Mostrando postagens de novembro, 2020

Invisível, mas tão presente

Considero Walt Whitman como um dos mais destacados poetas da humanidade. Seus textos são repletos daquela características que suponho indispensável na arte: a capacidade de nos religar ao nosso próprio ser - animalesco, instintivo e carnal. Sua voz resguarda um timbre religioso, consumido quase que integralmente em meio aos ruídos da plutocracia que impera diante de nós. Ele é um poeta do porvir e as bem fornidas prateleiras das bibliotecas ainda não são capazes de suportar a leveza da sua relva. A alma erudita se mostra insensível a umidade dos seus versos tão escorregadios. A sua musa transita entre nós, maltrapilha e abandonada; ela se embriaga junto aos corpos rejeitados e esquecidos pela multidão. Seu canto exorta a planta que agora cresce em minha janela, mas despreza qualquer princípio metafísico que queira se assumir como condição indispensável para tamanha beleza. Seu grito instiga guerra, o pólemos de onde tudo tem origem e no qual tudo tem seu fim. Ninguém foi mais long...

Plantas epífitas

 Eu só sou um poeta intimista, o resto finjo ser.

Figuras híbridas

Nunca me senti pertencente a um grupo, por mais que as pessoas se apresentassem semelhantes a mim. Os que cresceram comigo, por serem simples demais, não entendiam minha sede de ideais; meus sonhos eram inusitados, demasiados, teomaníacos, atípicos. Algo sempre me puxou adiante, para além da fina membrana que separa o céu das estrelas. Os que me conheceram depois, por serem complexos demais, não corresponderam a minha calmaria; meus desejos sempre foram banais, corriqueiros, ordinários, beiram quase o trivial. Algo detém meus passos, tal como um núcleo gravitacional que não me deixa flutuar, por mais que o espaço flerte comigo. Os que ainda estão por vir, por não me conhecerem, irão estranhar a ambiguidade dos meus discursos e, em especial, o paradoxo que configura meus atos. Que corpo pode, simultaneamente, ocupar dois lugares no espaço? Quem, além de mim, tem os pés no barro e a cabeça nas nuvens? Minotauros, Centauros, Sátiros, Esfinges... figuras híbridas que, apesar de fazerem par...

A escuridão tem muito o que nos ensinar

Lá na caverna, em meio escuridão, tudo parece ser um só. É difícil distinguir os objetos e nomear, com precisão, tudo aquilo com que relacionamos. Todavia, é um ótimo momento para aprender a usar os outros sentidos - para além da visão - e até, quem sabe, desenvolvê-los melhor. Em meio as trevas da noite, a sobrevivência depende da audição. Ouvir, talvez, seja um ato mais instintivo do que enxergar - não é a toa que, quando dormimos, os olhos fecham, mas os ouvidos continuam abertos. Devemos aprender, portanto, com a escuridão como ouvir com maior precisão os ruídos e os sons de tudo aquilo que nos cerca e, assim, quando clarear o dia, poderemos contemplar com mais nitidez aquilo que se encontra diante dos nossos olhos. Afinal, tudo é um só.

Oxalá ser conhecido como poeta

Oxalá que o futuro não reserve a mim o título de filósofo. Não porque sou contrário aquilo que esse título representa e sempre representou na sociedade, mas porque, de fato, minha práxis  intelectual se apresenta melhor como arte, como poesia. Sou um poeta que brinca/brinda com a filosofia; sou um artista que, inspirado pelas musas, tece críticas sobre a realidade. Minha racionalidade, quase sempre aguçada, é, na verdade, fruto da minha sensibilidade aflorada, dos sentidos astuciosos e, em especial, da mania  que me arrebata incessantemente em direção ao Ser. Oxalá, no futuro, ser conhecido como poeta; como alguém que foi tomado pela arte e não parou de sentir. 

Entremeio II

Conheci dois grandes estudiosos de Platão que eram antípodas. O primeira era um intelectualista, que o tomava como defender de uma filosofia profundamente segregaria. Já a segunda, por valorizar as questões revolucionárias, acabava por tornar o filósofo um marco do pensamento progressista e libertador. Com esses dois grandes estudiosos aprendi que poderia ser um terceiro: entremeio .