Figuras híbridas
Nunca me senti pertencente a um grupo, por mais que as pessoas se apresentassem semelhantes a mim. Os que cresceram comigo, por serem simples demais, não entendiam minha sede de ideais; meus sonhos eram inusitados, demasiados, teomaníacos, atípicos. Algo sempre me puxou adiante, para além da fina membrana que separa o céu das estrelas. Os que me conheceram depois, por serem complexos demais, não corresponderam a minha calmaria; meus desejos sempre foram banais, corriqueiros, ordinários, beiram quase o trivial. Algo detém meus passos, tal como um núcleo gravitacional que não me deixa flutuar, por mais que o espaço flerte comigo. Os que ainda estão por vir, por não me conhecerem, irão estranhar a ambiguidade dos meus discursos e, em especial, o paradoxo que configura meus atos. Que corpo pode, simultaneamente, ocupar dois lugares no espaço? Quem, além de mim, tem os pés no barro e a cabeça nas nuvens? Minotauros, Centauros, Sátiros, Esfinges... figuras híbridas que, apesar de fazerem parte de dois ou mais mundos, não se adequam a lugar nenhum.
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