Eu, professor de Filosofia

Há algo na Filosofia que faz dela um instrumento significativo de mudanças na vida dos adolescentes que a estudam no Ensino Médio. Não existe tempo mais conturbado do que esse meio termo entre a criança e o adulto: quantas coisas diferentes não ocorrem em nossas vidas em tão pouco tempo? A consciência de que o mundo é bem maior do que nosso lar ou a descoberta de zonas erógenas em nosso corpo causa um sem número de momentos difíceis que enfrentamos das maneiras mais inusitadas. A morte que cedo ou tarde chega e que agora passa a nos fazer sentir não mais pertencentes a esse mundo de ilusões que tanto adorávamos, que tanto nos fazia feliz, que acreditávamos ser infinito, eterno, imutável. O outro que nos olha, nos atormenta, nos julga, nos oprime, nos machuca e que exige nosso posicionamento, nossa opinião, nosso fortalecimento, nossa "adultificação" prematura. E em meio a tudo isso, claro, a Filosofia (mais do que qualquer outra disciplina que estudamos na escola) parece entender bem aquilo que estamos vivendo. Ela levanta perguntas esquisitas: Quem somos? Para onde vamos? De onde viemos? O que é tudo isso ao nosso redor? Por que é que tudo existe? Mas são justamente essas perguntas que na adolescência nos faz mais sentido. Parece que quanto mais envelhecemos mais deixamos de lado tais questionamentos, como se a vida adulta trouxesse a resposta para tudo. Quando somos adolescentes vemos nossos pais com tantas certezas, enquanto estamos envolvidos em tantas dúvidas, aborrecidos com justamente aquilo que para eles parece ser a maior fonte de verdades. Por tudo isso (e muito mais) escolhi ser professor de Filosofia no Ensino Médio. Uma atitude contra-intuitiva diante de um cenário nacional que desvaloriza cada dia mais a tarefa docente, que desvaloriza cada dia mais a Filosofia como disciplina curricular. Parece que não há mais tempo de ser adolescente. Parece que não há mais tempo de ter dúvidas. Parece que não há mais tempo. E contra tudo isso, a Filosofia persiste... QUASE marginalizada. E contra tudo isso, o professor persiste... QUASE esquecido. E contra tudo isso, eu persisto... QUASE silenciado.

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