Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas
O mais importante na arte de ensinar é cativar os estudantes a gostarem de aprender. É fazê-los perceber que é possível sentir anseio pelo conhecimento e que os livros podem ser excelentes parceiros para um relacionamento a longo prazo. Para isso, no entanto, o exemplo pessoal se mostra indispensável. Somente as ações podem preencher o espaço vazio que existe entre aquilo que é dito e aquilo que é vivido. Quando um educador mostra aos estudante o quão apaixonado é possível ser pelo conhecimento, isso gera uma curiosidade e um desejo incipiente que, em breve, podem tomá-los por completo. Uma vez tendo despertado o interesse dos alunos, as aulas se tornam infinitamente mais dinâmicas e proveitosas. Eles não estarão em sala apenas para cumprir com uma obrigação, mas porque agora são incapazes de se verem a parte dela.
Todavia, só educa quem não é profeta; quem não carrega a verdade consigo em cada discussão. Se não tomarmos cuidado, ensinar pode nos tornar "religiosos da ciências", "dogmáticos do conhecimento", "arautos da Palavra". Não é pouco o número de professores adoecidos com a "síndrome do Messias", carregando a postura de autoridade que os coloca bem distantes dos seus alunos. De suas torres de marfim, eles escarnecem os pobres mortais que ousam realmente querer aprender. Criam mais obstáculos do que pontes e, ao contrário de educar, promovem uma repulsa do conhecimento que, em pouco tempo, se transforma em misologia. Em sala de aula, portanto, dialogar é mais importante do que professar; ouvir é infinitamente mais necessário do que falar; mostrar-se disponível é ainda melhor do que está certo. Esses jovens estão cercados por adultos que, a todo momento, promovem juízo de valor, negam seus anseios, controlam suas vidas e afirmam o seu poder. O educador não deve ser uma figura de autoridade, porém um modelo de humildade a ser seguido.
Desse modo, ser educador não é apenas ter uma profissão. Não se é educador como se é pintor, engenheiro ou advogado. Essas profissões tem horas, lugares e momentos para atuação; suas atividades estão restritas a lugares específicos e momentos pré-determinados por outros que não fazem parte necessariamente do seu trabalho. Já ser educador é algo contínuo e, por lidar com pessoas, foge do tempo e espaço determinado. Qualquer hora é momento de educar; qualquer lugar se torna uma sala de aula. Além disso, enquanto todas as outras profissões se distanciam do seu objeto de trabalho, o educador se encontra ligado com seus educandos por um laço que rompe qualquer limite espacial e se prolonga por um tempo indeterminado em direção ao futuro. Tal como o Pequeno Príncipe, todo educador precisa entender que se torna eternamente responsável por aquele que cativa. Ele é um importante elo entre os indivíduos e seus sonhos; o primeiro degrau que fará esses jovens - alguns ainda tão novos! - a chegar no topo de suas vidas.
E o verdadeiro educador fará tudo isso a um custo preço e contra marés que quase sempre o empurrarão de volta a praia. Ele será pouco recompensado por uma tarefa tão homérica; e sofrerá humilhações diárias por não abrir mão daquelas poucas almas que realmente necessitam dele. Sim, serão poucos, pouquíssimos, que saberão valorizar o seu trabalho; alguns o esquecerão meses depois que não necessitarem mais do seu aprendizado. Ele sempre será aquele menino que abre as portas das gaiolas para os pássaros voarem e os contempla de longe, feliz, por saber que, apesar de nenhum voltar, ele foi o principal agente da liberdade.
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