Elogio à Xantipe
Os motivos que levaram Xantipe a ficar conhecida na história foram bem diferentes daqueles que transformaram seu marido, Sócrates, no marco da filosofia. Sendo mulher, dona de casa e mãe de dois filhos na Grécia, Xantipe dependia completamente do marido para sobreviver. Não tinha voz em praça pública, não podia lutar por direitos, não podia trabalhar para ganhar seu próprio sustento, era tão importante quanto um escravo que pertencia ao seu senhor como um objeto qualquer. Dia após dia, enquanto presenciava a fome dos seus filhos, esperava o marido retornar de suas longas conversas filosóficas. As vezes somavam semanas sem o marido por os pés em casa porque estava debatendo o valor da virtude com homens sem virtude alguma. Como ela detestava a filosofia que fazia do seu marido um escravo da reflexão! Não entendia como ele dialogava sobre tantos temas (morte, verdade, amor, coragem, virtude...) e deixava de refletir o mais essencial: se era um bom marido/um bom pai ou não. Era tão bem cercado de jovens, dedicava um atenção especial a cada um, mas esquecia dos pequeninos que realmente dependiam dele. E a história, em vez de apontar esse importante fato, apresentou Xantipe como uma megera, inimiga da filosofia, aquela que atrapalhava a tão nobre missão do seu marido. Os manuais a descrevem apenas como uma mulher de temperamento forte e profundamente ciumenta; os professores a apontam como exemplo de que nenhum filósofo (ou estudante de filosofia) deva se casar. Mas era apenas uma mãe quase solteira, dona de casa, preocupada com os filhos, esperançosa que um dia, quem sabe, o marido deixasse a filosofia e fosse cuidar da sua família. O verdadeiro valor de Xantipe na história foi mostrar como o homem sempre pode ser um babaca, até mesmo e principalmente sendo um excelente filósofo.
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