Rede de influências

Por muito tempo, alguns períodos de transição na história da filosofia (sobretudo aqueles marcados por grandes mudanças paradigmáticas), foram interpretados com ingenuidade e má-fé por parte dos pesquisadores. Alguns, na falta de uma leitura mais aprofundada dos acontecimentos históricos, acreditavam em verdadeiros "milagres", como se existisse um espaço intransponível entre o antes e o depois. Outros, não querendo atribuir a glória aos que também contribuíram para a superação de um determinado paradigma, focavam sua atenção apenas naqueles que reuniam e sistematizavam as novas descobertas. Encontramos exemplos desses dois tipos de posicionamentos tanto em relação ao "início" da filosofia, quanto na passagem do Medievo para a Modernidade. Até hoje se fala em um "milagre grego", como se não fosse possível encontrar elementos da filosofia já presente nos mitos e na cultura grega de um modo geral. Não é por acaso que Aristóteles, em uma passagem da Metafísica, afirmou que "o amante da sabedoria é, de algum modo, o amante do mito". No caso da modernidade, suponham-se que o cogito  tenha sido uma epifania de Descartes, sem levar em consideração as meditações de Agostinho, Campanella e Montaigne. Ora, como observou bem Hegel: "todo o filósofo é filho do seu tempo". Isolar um pensador do seu momento histórico é sempre um tentativa ingenua ou desleal de conhecê-lo. Na história não existem milagres. A rede invisível de influências está presente e se tivéssemos uma compreensão bem menos limitada (como sugere Espinosa), certamente seriamos capazes de perceber um certo fatalismo nos acontecimentos. Não estou com isso negando que podemos dar saltos, mas estou chamando a atenção para o fato de que até mesmo saltando para o desconhecido, temos que partir de um ponto já conhecido.

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