O ponto de chegada é o ponto de partida

Retornei ao mesmo ponto de onde parti há anos, mesmo sem ter tido intenção alguma em querer voltar. Pensei que se seguisse em linha reta, como sugerem os apóstolos do progresso, chegaria em outro lugar, distante, desconhecido, mas inteiramente novo e bem melhor do que o de antes. Pensei que se eu fosse firme em meu proposito, que não desistisse, apesar de todos os problemas e impasses que, por ventura, fosse enfrentar, o caminho me presentearia com sua linha de chegada, com aquela luz no final do túnel, com o tesouro no fim do arco-íris que todos estamos procurando. Mas a linha reta só me trouxe de volta ao ponto de onde parti quando ainda era um adolescente, ingênuo, cheio de sonhos, sem muitas cicatrizes pelo corpo. Nada aqui parece diferente: as casas, as árvores, as pessoas... reconheço tudo, como se o ano já não fosse 2018, mas ainda 2009. O que significa isso, afinal? Errei o caminho? Sou incapaz de prosseguir? Estou dando voltas no mesmo lugar? Lá longe, a mesma marca de pés na areia (os meus pés!), apontam a direção em que parti. Algumas pessoas (jovens e até idosos) parecem segui-la com o mesmo entusiasmo que eu tinha. Devo avisá-los que aquele caminho os trará de volta aqui? Que será tudo em vão? De repente, sinto alguém tocar em meus ombros e percebo que é um amigo de infância. Embora pareça mais velho e com algumas cicatrizes na face, afirma está decepcionado com a vida; que o caminho que trilhou o trouxe exatamente ao mesmo lugar de onde partiu: aqui. Ele seguiu meus passos? Como eu nunca o vi atrás de mim? Ele aponta um lugar distante - algo como uma trilha na floresta - e me conta que foi por lá que acabou chegando de volta aqui. Como é possível que duas direções diferentes desemboquem no mesmo lugar? O que isso significa? Então conversamos. Trocamos experiencias sobre as nossas viagens. Relatamos o que aprendemos, mesmo não entendo muito aquilo que o outro quer dizer. Descobrimos que ainda desconhecemos muito da vida. Que os caminhos que seguimos, apesar de distantes, parecem até ser complementares. Nesse estante, ao ouvir parte de nossa conversa, um senhor - de idade já bem avançada - fica interessado em coisas que vivi. Nos conta que acaba de chegar de sua sexta viagem e que estava contente de ter voltado para casa. Sexta viagem? Voltado para casa? Então eles nos conta tudo o que precisamos saber: que todos os caminhos que seguimos sempre acabam trazendo-nos de volta para o mesmo lugar: o ponto onde tudo começa. "O ponto de chegada", diz ele, "não existe". "Todo caminho, independente da direção, sempre leva de volta ao seu início, como se estivéssemos presos a um eterno ciclo". Olho em volta e tento reparar nas pessoas: apesar de serem as mesmas, elas sempre estão partindo e chegando; estão sempre adquirindo experiências, histórias e cicatrizes. O velho se despede e diz que deve seguir seu sétimo caminho. Que se interessou por coisas que eu havia falado da minha viagem e que acha que é exatamente por onde deve seguir agora. Tento alertar que será em vão, que logo estará aqui de novo, e ele apenas sorri. Acena com a cabeça e se despede alertando que retornar nunca é em vão. Inesperadamente, ao meu lado, meu amigo afirma que ele também deve prosseguir. Diz ter encontrado um novo caminho que, aos meus olhos, não passa de pedras e espinhos. Estou só novamente, como um adolescente, ingênuo, cheio de sonhos e ainda sem muitas cicatrizes. Mas tudo agora parece diferente: as casas, as árvores, as pessoas. Reconheço tudo, mas não estamos mais em 2009. O que significa isso, afinal? Encontrei um novo caminho? Devo prosseguir? Vou continuar dando voltas no mesmo lugar? E misteriosamente, antes mesmo de eu concluir meu raciocínio, em um ponto da paisagem que antes era apenas entulho, se abre um novo caminho. Um caminho desconhecido para mim, mas que eu sei exatamente onde ele vai me deixar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Docta ignorantia

Pássaro sem bando

Um lobo à luz do dia