Dia do livro. Hoje. Nada parece mais trágico; nada parece mais cômico. Estamos vivendo uma peça da dramaturgia, senhoras e senhores. A vida realmente imita a arte. Passemos ao segundo Ato.
Tenho por certo que jamais alcançarei o conhecimento pleno das coisas; e, ainda que me contente com o pouco que me é dado saber, não se extingue em mim a sede de compreender. Essa docta ignorantia é o fardo e a graça de minha condição: sei que ignoro, e por isso mesmo busco sem cessar. Filho de Poros e de Penia, carrego em minha essência a contradição que me ergue e me abate, que me lança ao infinito e me prende à terra. Se muitos veriam nisso um motivo de desespero, encontro, ao contrário, uma secreta alegria: pois é na insuficiência que descubro o meu ser, e na fome insaciável de saber que reconheço a dignidade da minha existência.
Eu não preciso de muito para ser feliz: um livro de poesias aberto sobre a cama; uma noite de natal, na qual as luzes projetam monstros e querubins; um mocca quentinho, com o ganache deslizando pela caneca; uma conversa com quem sente as dores do mundo; e, acima de tudo, a certeza de um ano melhor. ... Às vezes, tenho a sensação de que os sonhos grandiosos são mais fáceis de alcançar; que a simplicidade, justamente por sua facilidade, é inalcançável. Seria tudo mais simples se o ouro fosse mais importante do que a verdade. Mas não: eu sou uma mariposa que só se sente atraída pelo brilho das estrelas. ... O meu problema é não ter nascido quebrado como todo mundo. Os domingos seriam mais fáceis de suportar com alguns neurônios a menos. As árvores não atrairiam tanto a minha atenção, e as palavras não pesariam uma tonelada. Voar perde toda a graça quando se é um pássaro sem bando.
Partilho, em larga medida, as características do Lobo da Estepe, tal como descrito por Hermann Hesse. Sua natureza híbrida, anfíbia, dual, que transita entre dois pólos contrastantes e que gera consequências devastadoras e divinas para si e para o mundo se projetam sobre mim, como um reflexo literário da minha própria existência. Contudo, há um aspecto, em especial, que me distancio completamente: sou diurno, um matuto na raiz do termo, e amo as manhãs ensolaradas. E isso me faz ainda mais triste que os demais lobos, que vagam apenas durante noite e têm a escuridão para os proteger. Ser uma monstruosidade sob à luz do dia, aos olhos de todos, é ainda mais arriscado e penoso. Deve ser por isso que passei a maior parte da minha vida como uma presa e quase nunca como caçador.
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