Os filósofos cultuam conceitos

O Politeísmo grego operou uma personificação da natureza, atribuindo-lhe características essencialmente humanas. Quem era Gaia se não a própria Terra? Quem era Poseidon se não o próprio Mar? Quem era Zeus se não o próprio Trovão? Ora, se encararmos os seus mitos a partir dessa perspectiva, a Teogonia de Hesíodo se revela uma Cosmogonia, ou seja, um relato sobre a origem do universo. Quando a filosofia surge, ela permanece nesse mesmo viés, mas trazendo um tipo diferente de abordagem: os fenômenos naturai, mais do que cultuados, deveriam ser entendidos. Assim, o lógos passou a exigir uma nova causa para todas as coisas. Os filósofos milesianos, por exemplo, abandonaram a personificação da natureza em favor da sua conceituação. Por mais que queiramos, não somos capazes de beber a "água" de Tales ou respirar o "ar" de Anaxímenes. Esses termos são conceitos que objetivam responder exclusivamente a exigência do lógos. Eles apontam algo de universal na realidade que é incapaz de se esgotar nas suas múltiplas particularidades. Foi assim que o politeísmo adquiriu a forma de filosofia natural. O mundo ainda se encontra repleto de deuses, mas eles não possuem mais formas humanas, agora são conceitos.

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