Vide e vê

O evangelho de João é aceito, quase com unanimidade pelos estudiosos, como o mais filósofico dentre os demais. É sabido que, no que diz respeito a narrativa, ele foge daquela visão unitária que torna os outros parte de um mesmo enunciado, angariando o título de "evangelhos sinóticos". Todavia, para além do seu aspecto formal, o evangelho de João também apresenta uma grande variedade de conceitos filosóficos que o coloca em diálogo direto com os pensadores da Grécia. Só a título de exemplo, o prólogo se vale de ao menos dois termos importantíssimos na discussão dos filósofos  naturalistas (que ficaram conhecidos como "Pré-Sócraticos"): Arché (princípio) e Lógos (palavra). "No Princípio era a Palavra..." e com essa simples frase João insere o Jesus Cristo na discussão criada por Tales sobre o princípio de todas as coisas. Sendo um evangelho essencialmente filosófico, portanto, cada conceito utilizado, cada estrutura montada para a apresentação do discurso, não é em vão. É mister que o leitor fique atento as nuances e perceba que tudo possui uma finalidade bem específica, como se o texto fosse realmente um "técido textil", formado por um emaranhado de linhas arranjadas, harmonicas e suavemente dispostas para a consecução do seu plano maior - que é apresentar a figura de Cristo e os seus ensinamentos. Dito isso, chamo a atenção para um ponto específico: as primeiras palavras de Jesus no evangelho. Se nada em João é em vão, as primeiras palavras do Messias já devem representar bem seu papel para com a humanidade e/ou nos ensinar algo de importância nuclear, indispensável para se alcançar o "Reino de Deus". As suas primeiras palavras se encontram apenas nos versículos 38 e 39 do primeiro capítulo, após o testemunho de João, o batista, e o batismo de Jesus. Neessa ocasião, dois discipulos de João, orientados pelo seu mestre a seguir Jesus, foram até ele para prestar-lhe saudação. Eis que as paavras de Jesus foram: "o que buscam?". Ora, Jesus sabia bem o motivo pelo qual aqueles indivíduos estavam ali, mas mesmo assim perguntou. Talvez o pergunta ressoe até nossos ouvidos, dois mil anos após aqueles acontecimentos, com a mesma intensidade: o que buscamos quando buscamos a Cristo? Eis uma pergunta que deve ser tomada sempre que abrimos a bíblia, que vamos a igreja, que oramos ou pensamos no Senhor. O que buscamos? Não devem tomar o caminho da cruz sem antes responder a nós mesmos essa pergunta. É preciso ter consciência do motivo pelo qual estamos diante de Deus; é preciso refletir sobre nossos passos em direção a Ele, pois isso garantirá a autonomia necessária para devotarmos uma vida ao Seu Nome. É por livre vontade que devemos buscar a Jesus e não apenas porque outros derão testemunho Dele. Jesus queria que aqueles homens o seguissem por vontade própria e não apenas porque João havia-lhes ordenado. E os discípulos, talvez ainda meio receosos quanto a sua figura, perguntaram onde ele morava (ou atuava), e eis que sua resposta foi: "Vide e vê". Com essas palavras aprendemos um outro tipo de testemunho, mais poderoso, próprios de um verdadeiro cristão, aquele realizado com atos ou obras. João, o batista, poderia testemunhar com palavras sobre o Filho de Deus, mas Jesus poderia mostrar, com atos, que ele próprio era o Filho de Deus. E aos Cristãos podemos tomar isso como o primeiro dos seus ensinamentos: façam que, com suas ações, todos vejam que és um verdadeiro Filho de Deus. Como salienta também Mateus (5, 16): "comece, assim, vossa luz a brilhar diante dos homens, para que, vendo  e boas ações, glorifiquem vosso Pai, que estás nos céus". Estas foras as primeiras palavras de Jesus em João. Caso ainda não saibas por que buscas a Deus, vai e veja como Jesus se portava diante da vida. 

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