Imanente, demasiado imanente
Não há nada de essencial no mundo. Tudo é passageiro, acidental, finito e passivo de transformação; tudo sofre mudança, se destrói, é secundário, existe por um curto período de tempo. Não há nada de universal aqui: lidamos apenas com coisas particulares. Não existe nenhuma cadeira igual a essa; não existe nenhum cachorro igual ao meu; não existem ninguém igual a mim. Não há um outro "plano", um outro "reino", um outro "verso"; habitamos na imanência, transitamos na imanência, somos a imanência e jamais deixaremos de ser. Ainda assim partilhamos ideias e ideais; comunicamos verdades apodíticas; elaboramos conceitos metafísicos; exigimos a fé de outros; seguimos utopias. Criamos sistemas filosóficos complexos em tornos de palavras vazias e condenamos quem ousa nos lembrar daquilo que estamos cheios. Estamos cheios da vida - da verdadeira vida. "O Ser se diz de várias maneiras", mas existem maneiras mais corretas de o dizer: Lógos, Forma, Substância, Deus, Razão, a Coisa em Si, o Absoluto, o Dasein! E o que é o Ser? O que essas palavras querem dizer? Eu vejo o Ser aqui diante de mim? Tu és, por ventura, o Ser? Não podes, o Ser é aquilo que subjaz as transformações, as mudanças, enquanto tu deixarás de existir em breve. O Ser é algo de essencial. Algo de contínuo, necessário, infinito e imutável; ele é incorruptível, é primário, existirá para sempre fora do tempo. De onde tiramos isso, afinal? Por qual motivo postulamos tal disparate? O universal é uma necessidade lógica ou existencial? Qual é a importância da "ideia da cadeira" para mim? Qual é a importância de existir um ser ideal? Será que eu quero realmente conhecer as coisas nelas mesmas ou viver para sempre? Em um outro "plano", em um outro "reino", em um outro "verso"? habitamos na imanência, transitamos na imanência, somos a imanência e tudo que almejamos é deixar de ser. Estamos cheios da vida - da verdadeira vida.
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