Penso, logo repito
Embora Descartes queira amiúde se afastar de Aristóteles, sua filosofia Racionalista acaba sendo uma devedora do pensamento proposto pelo Estagirita. Isso porque o próprio Aristóteles sempre foi um discípulo de Platão e, como tal, atribui grande importância ao pensamento. No que se discute as substâncias e seus atributos, Descartes esclarece que "substância", no sentido mais próprio, só existe uma: Deus. Todavia, também podemos apontar a "substância corpórea" e a "substância espiritual" como sendo minimamente equivalentes a substância divina. Ele faz isso pois sua raiz cristã determina que "somos imagens e semelhanças de Deus" e, em larga medida, participamos de algo do divino. Ora, na medida em que lemos suas obras vamos descobrindo que aquilo que nos aproxima de Deus, na verdade, é a "substância espiritual" (isto é, o pensamento) e aquilo que nos separa é a "substância corpórea" (ou seja, as sensações), de tal maneira que estamos entre Deus (puro pensamento) e os animais (pura corporeidade). A filosofia aristotélica, filha bastarda de Platão, não diz outra coisa se não isso. O deus aristotélico não é outra se não pensamento. Pensamento de pensamento. Embora alguns detalhes sejam bem diferentes (por conta, sobretudo, da religiosidade semita e da longa noite de mil anos que rejeitou gradativamente o papel do corpo), a filosofia de Descartes continua sendo uma nota de rodapé de Platão. E, no que tange aos aspectos metafísicos, devedora da filosofia primeira de Aristóteles. O cogito é só detalhe.
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