O dia em que o padre Mersenne uniu Descartes e Gassendi
Muitos filósofos adquiriram profundas inimizades ao decorrer da vida - seja por conta de suas personalidades atípicas (e nem um pouco sociais), seja pelo simples fato de não concordarem com o pensamento uns dos outros. Alguns fazem dessas inimizades um pretexto para se superarem as próprias dificuldades. Digladiam apenas em ideias, buscando os pontos frágeis da tese rival e demonstrando como elas são insustentáveis ou contraditórias. Outros, entrementes, são mais intolerantes e não suportam a existência do seu inimigo em hipótese alguma. Um bom exemplo para esse último tipo se encontra na relação de Descartes com Gassendi. Conta-se que discordavam de quase tudo e suas concepções eram completamente antagônicas. Enquanto o primeiro buscava uma verdade indubitável para erguer sua filosofia, o segundo era mais adepto do ceticismo, contente em encontrar pelo menos alguma verdade meramente provável. Enquanto o primeiro queria provar a existência de Deus, o segundo dizia que Ele não passava de uma construção humana, antropomórfica, que recolhia todos os valores humanos em apenas um nome. Mais de uma vez foram vistos trocando socos e palavrões em portas de igreja porque Descartes não admitia que Gassendi afirmasse que o bem supremo do cristianismo é o prazer. Os padres não entendiam aquelas cenas: "como dos dois maiores nomes da filosofia poderiam se tratar daquele jeito?". Para pôr fim a essa querela tiveram a ideia de chamar o padre Marin Mersenne para mediar os conflitos. Embora já estivesse bem velho e debilitado dos pulmões, o homem aceitou o convite de imediato - talvez por que conhecia bem os dois sujeitos, talvez por não abrir mão de presenciar conflitos filosóficos. Durante toda a sua vida ele ficou conhecido justamente por arranjar disputas argumentativas e, quase sempre, ficar a favor de todos ao mesmo tempo. Mersenne marcou um encontro e escutou as acusações: enquanto Gassendi era um corpo que não se envergonha de ser também espírito, Descartes era um espírito que se envergonha de ser corpo. Quanto mais falavam, mais pareciam diferentes. Contudo, os ouvidos de Mersenne estavam habituados a selecionarem apenas os pontos em comum e perceberam que, conquanto não suportassem um ao outro, detestavam ainda mais Aristóteles. O velho, portanto, resolveu usar isso ao seu favor, apontando como o estagirita parecia mais correto que eles em certos pontos. Não demorou muito até que Descartes e Gassendi se unissem contra ele. Os dois eram primorosos: completavam e defendiam o argumento do outro. logo notaram que, apesar das diferenças, possuíam muitas coisas em comum. Os padres que passavam por ali ficaram surpresos como Mersenne havia unido os dois daquela maneira, e o velho apenas sorria, satisfeito por ter comprido mais uma vez a sua missão. Mais tarde, pouco antes de morrer, quando perguntado sobre como ele sempre conseguia essas incríveis façanhas, o velho respondeu: "se as pessoas prestassem mais atenção às semelhanças, esqueceriam as diferenças".
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