O Estado de Natureza como a Idade de Ouro


Esses dias, ao ler o livro de Thomas Bulfinck sobre Mitologia Grega, não pude deixar de notar como o "relato das quatro idades" parece refletir o modo como Rousseau havia construído sua própria filosofia. Para este filósofo, todo homem possui qualidades inatas que preexistem à sua prática social, determinando o seu modo de ser diante do mundo. Essas qualidades, afirma ele, são positivas e podiam ser encontradas com maior facilidade naquilo que ele nomeou de "Estado de Natureza. Esse era o momento em que a humanidade dependia exclusivamente da natureza; onde a técnica ainda não era bem desenvolvida e, as relações sociais, eram estabelecidas de uma maneira mais ocasional e não tão necessárias como as nossas. O ponto central do seu pensamento, portanto, se concentra na crítica ao modelo de sociedade em que vivemos e, sobretudo, na perca de nossa própria identidade, na medida em que "progredimos" por meio da técnica e da ciência. Ora, o "relato das quatro idades" do mundo helênico parece se aproximar de tudo isso quando afirma que, desde sua criação, os homens passaram por quatro grandes eras: a) a primeira, a Idade de Ouro, é o período da inocência e da felicidade; a verdade e o direito prevaleciam sem serem impostas por leis positivas. A natureza oferecia todo o mantimento necessário para que os homens pudessem viver e tudo pertencia a todos, sem qualquer premência de uma propriedade privada; b) já na segunda, a Idade de Prata, a mudança climática exigiu que os homens procurassem lugares fixos de morada. Surgiram as primeiras casas e o homem passou a cultivar seu próprio alimento, dominando paulatinamente a natureza ao seu redor; c) a terceira, a Idade de Bronze, já apresenta o início da decadência humana. Surge aqui a necessidade de proteger os próprios bens e, por conseguinte, a demanda pela criação e desenvolvimento de novas armas. Homens começam a matar uns aos outros e as propriedades privadas passam a originar todo tipo de desigualdade social; d) e, por fim, tudo culmina na Idade de Ferro: tempo de grandes massacres; a natureza passa a ser vítima dos homens e os deuses, diante de tantas desgraças, abandonam a humanidade diante de sua própria sorte. Parece, portanto, que o Estado de Natureza foi, mutatis mutandis, a Idade de Ouro da humanidade. Não é a toa que Rousseau aponta, como a raiz de todo o mal, a construção das "propriedades privadas". Afinal, como pudemos ler, foram elas que desencadearam as demais Idades, decadentes: para proteger o que é seu, os homens criaram armas e, para aumentar suas posses, eles passaram a explorar não somente a natureza, mas outros iguais a ele. Assim como os gregos da Antiguidade, Rousseau parece sonhar com o retorno à Idade de Ouro. Mas isso só será possível se fizermos um novo contrato social, que priorize a liberdade dos indivíduos, e eduquemos nossas crianças para que cresçam priorizando aquilo que perdemos durante o nosso "progresso". 

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