Sou vasto

De tempos em tempos meu peito entra em um sono profundo. Deixo de sentir as sensações mais elementares, como o toque das gotas de chuva na pele, o canto majestoso do bem-ti-vi na mangueira, o odor açucarado do jasmim e o carinho amoroso de uma mão deslizando sobre minha face. Fico, por meses, nesse estado de letargia involuntária, largado a indiferença e a apatia; esperando, quem sabe, um acontecimento que seja marcante o suficiente para desfibrilar meu peito; que faça meu coração voltar a pulsar freneticamente; que exija o retorno imediato das minhas lágrimas e dos meus sorrisos. 

De tempos em tempos eu sou pura euforia. Me entrego as paixões mais arrebatadoras e potencializo os sentimentos mais elementares. Me lanço dentro do mar, esperando que as ondas fragmentem meu ser; torno-me um verdadeiro glutão e me alimento daquilo que não me sacia, que oferece risco a minha vida, que engorda minha pobre alma. Fico, por meses, nesse estado de devoção involuntária, entregue ao entusiasmo e a desmedida; esperando, quem sabe, um acontecimento que seja marcante o suficiente para abrandar meu peito; que faça meu coração entrar em um sono profundo; que seque minhas lágrimas e costure meus sorrisos.

De tempos em tempos eu só quero que esse ciclo tenha fim. Que eu possa ser só um em meio a essa vastidão.

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