O deus aristótelico

Aristóteles, estrangeiro com residência em Atenas, não acreditava nos deuses da cidade. De linhagem médica e postura cética, o filósofo defendia que a investigação da natureza era o único caminho possível para entendermos os acontecimentos naturais, por mais excepcionais que eles possam parecer. Desde pequeno, estranhava as narrativas que lhe contavam sobre os deuses: eram sempre relatos sobre inveja, ódio, paixão, tristeza... havia muito do humano em seres que diziam ser tão poderosos. "Por que um ser que possui tudo ainda pode desejar tanta coisa?" perguntava, mas ninguém lhe respondia. "Além disso", complementava, "se observarmos mais atentamente a natureza poderemos encontrar as causas da geração e da corrupção das coisas; dos seus momentos de repouso e de movimento; dos elementos que compõem tanto os objetos ao nosso redor, como as estrelas e os astros que brilham lá no céu". Até que um dia, ainda jovem, Aristóteles conheceu Platão e a sua vida mudou. Nem mesmo seu pai, Nicômaco, médico da corte de Felipe II, lhe fascinava tanto quanto aquele homem que passava horas imóvel, debruçado sobre uma pequena escrivaninha de argila, escrevendo textos, envolvido em seus próprios pensamentos. Mesmo parado ele fazia com que todos se movimentassem ao seu redor, aspirantes de qualquer conhecimento que pudessem arrancar dele. Mas ele fava de ideias transcendentais que ninguém mais via. De vidas passadas e futuras, como se ele próprio existisse fora do tempo. Desprezava os prazeres do corpo, alegando que somente assim alcançaríamos o verdadeiro filosofar, livre e independente de causas exteriores. Não se importava com o mundo ao seu redor, pois dizia não passar de uma mera cópia de um mundo mais perfeito. E Aristóteles se fascinou com Platão, pois havia algo de muito divino naquele homem. E concluiu que se deus existisse seria exatamente como ele: pura energia, imóvel, despreocupado com as coisas banais, pensando em realidades perfeitas, eternas e atemporais.

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