Um cão no jardim
Diógenes, o cão, ficou
conhecido por sua postura irreverente diante das principais condutas sociais
existentes na pólis dos séculos V e IV
a.C. Até hoje, no mundo inteiro, estudantes de Filosofia se deleitam com sua
franqueza e seu habitual modo sarcástico de tratar aqueles que eram
considerados as figuras mais importantes do seu tempo. Conta-se, por exemplo,
que certo dia ao caminhar próximo aos jardins das delícias de Epicuro foi
convidado por um dos seus discípulos para visita-los. Chegando lá, Diógenes se
espantou com o que os seus olhos lhe mostravam: uma dúzia de homens deitados sob
uma relva fina e densa, alimentandos por mulheres seminuas que os acariciavam e
os beijavam em suas faces. No centro deles, um pequeno banquete se apresentava:
frutas, sementes, pães e mel. Ao longe, alguma voz grave recitava uma máxima
por entre os acordes de uma harpa: “dentre as coisas que nos acrescenta
sabedoria e felicidade, a maior delas é a amizade”. “Sente entre nós!”, gritou
um rapazinho de pele rosada, de olhos azulados e braços finos como pequenos
galhos de pinheiro. “Você já passou muito tempo entre os cães, conviva com
pessoas como você”. Com aquelas palavras, Diógenes entrou no jardim e se jogou
direto em um canto que a relva parecia mais cuidada. Mas alguém o repreendeu
por ter escolhido justamente o lugar de repouso do seu mestre. Depois foi até
uma mulher de cabelos longos e peitos pontudos, mas ela o evitava, afirmando
que era reservada somente a Epicuro. Por fim, quando finalmente foi se
alimentar, alguém sugeriu que esperasse o mestre chegar, pois ele não gostava
muito que comessem em sua ausência. Diógenes chutou a pequena mesa de frutas,
enfurecido. Que porra de lugar era aquele que tinha tudo, mas ninguém podia
fazer nada?! Empurrou uma jovem que tentou lhe acalmar, e cuspiu em um dos
rapazes que estavam deitados próximo aos seus pés. Saiu do Jardim das delicias
alegando que existia mais amizades entre os cães do que ali com Epicuro.
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